quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Mãe!

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme começa intrigante por ser diferente, anti-convencional, por mostrar uma série de coisas misteriosas (O que é aquele cristal? Por que o incêndio no começo? Por que a Jennifer Lawrence sente coisas dentro da parede? O casal tem poderes sobrenaturais?). Mas já fica a impressão de que o filme busca a estranheza apenas pela estranheza em si. Pra tentar parecer cult. Não porque o autor de fato é excêntrico, tem uma visão autêntica, original, conteúdo inovador pra passar, nem porque deseja criar uma experiência positiva pro espectador.

- A ideia de filmar o rosto da Jennifer Lawrence apenas em close é uma dessas decisões arbitrárias que só servem pra chamar atenção pra direção, pra mostrar pros críticos que o diretor tem "técnica". Em geral é uma fotografia ruim, feia, sem noção de comunicação visual... Isso resume bem o filme: é pobre esteticamente, sem nada de muito talentoso, mas como há um "conceito" diferentão por trás, fica soando artístico pro espectador ingênuo.

- O mundo dessas pessoas sempre foi surreal? Ou a maluquice começou só agora por algum motivo? Não sabemos. É a mesma coisa que falei de Cisne Negro (também de Aronofsky). Esses não são personagens normais que de repente estão vivendo eventos extraordinários (nesse caso a gente ainda poderia se identificar). Desde a primeira cena já estávamos num universo absurdo sem nenhuma explicação. Não dá pra gente se identificar com eles, acreditar no que está acontecendo, se envolver em uma narrativa compreensível, etc. O filme é apenas um joguinho que o diretor quer fazer com a plateia - mostrar um monte de coisa inexplicável pra gente tentar adivinhar qual a simbologia genial por trás da história.

- Não há realismo psicológico ou sutileza na construção dos personagens. Os diálogos são banais, sem profundidade. Ed Harris não convence como um fã obcecado, nem o Javier Bardem como um escritor famoso. Depois tem aquela família que invade a casa, o irmão que mata o outro e vem com uma psicologia barata pra se justificar: "ele sempre foi mais amado do que eu". Os personagens são apenas marionetes sem alma pro diretor apresentar seu "conceito". A sensação é de estar vendo um filme feito por alguém absolutamente convencional (tem até o clichê do jump-scare na porta da geladeira) mas que tenta se passar por genial, alternativo.

- Depois de 1 hora nessa alucinação o filme começa a ficar chato. Não há um contraste entre fantasia e realidade pra tornar a experiência interessante. A gente simplesmente deixa de acreditar no que está acontecendo. Aceita que é tudo "simbólico", que pode ser tudo um sonho, uma "metáfora". Os personagens não têm objetivo, não temos ideia do que eles poderiam fazer pra sair desse pesadelo... A plateia fica apenas assistindo pessoas sofrendo, sendo cada vez mais perturbadas num universo maligno de onde não há escapatória. É uma história focada no negativo, que glamouriza a dor - só aguentamos até o final porque queremos saber se o cineasta vai ou não revelar sua sacada, qual a "crítica" que ele quis fazer (como se uma crítica justificasse uma obra de arte). O problema é que, mesmo que seja algo brilhante, isso não vai anular as 2 horas de nonsense que tivemos que assistir. Seria muito melhor não ter nenhuma crítica, nenhum conceito brilhante no fim, mas ter sido brilhante no durante.

- SPOILER: O final soa tolo, apenas um apelo pra violência, pro sensacionalismo, sem nada de positivo pra equilibrar nem de inteligente pra dizer. Tudo em nome de uma crítica ao homem, à "ganância masculina", que pelo visto sempre coloca a carreira acima da família, da vida, que oprime e violenta a pureza da mulher (da "mãe natureza" quem sabe), etc. Se for uma metáfora bíblica, o filme seria do tipo que depende de informações externas específicas pra funcionar, precisa de um "manual" pro espectador, não tenta funcionar de forma independente, o que viola um dos princípios que estabeleci na postagem Virtudes e Tipos de Filmes.

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CONCLUSÃO: Razoavelmente divertido por ser extremo, incomum, mas no fim é um filme tolo e pretensioso.

Mother! / EUA / 2017 / Darren Aronofsky

Postagens Relacionadas: Filmes Bem vs. Mal Intencionados / Alerta Vermelho / Virtudes e Tipos de Filmes

FILMES PARECIDOS: Cisne Negro (2010) / Ilha do Medo (2010) / Fonte da Vida (2006)

NOTA: 4.0

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Feito na América


O filme conta a história verídica de um piloto que trabalhou pra CIA nos anos 80 e que se aproveitou de seus acessos pra ganhar montanhas de dinheiro transportando drogas da América do Sul para os EUA. É uma coisa meio Prenda-me Se For Capaz - um desses filmes que contam histórias de personagens que fizeram fortunas de forma corrupta, tentando tornar meio cool a malandragem deles, o mundo do crime, meio que zombando do sonho americano, etc. Não sou muito fã de filmes com essa atitude, mas as qualidades de Feito na América são maiores que esse "porém" e me fizeram aproveitar a sessão. O roteiro é divertido, dinâmico, sempre fugindo do previsível, elevando a situação pra novos patamares, num minuto te convencendo de que tudo está resolvido pro personagem, no outro trazendo uma nova informação que coloca tudo em risco de novo, há momentos de ação tensos, o filme é bem dirigido, bem narrado, etc... E apesar de não ser o ator mais apropriado que poderíamos imaginar pra um personagem desses, é de certa forma agradável ver o Tom Cruise explorando tipos diferentes, que não sejam aquele herói ultra-eficaz, incorruptível e sedutor que ele já fez tantas vezes.

O grande "problema" do filme pra mim não é nenhum defeito na execução, nem mesmo no conteúdo, e sim a natureza pouco ambiciosa da produção em termos artísticos, no impacto que ela deseja causar no espectador. Primeiro pelo filme não trazer nada de muito novo ao gênero, e acabar se parecendo com muitos outros filmes que já vimos antes. Mas além disso, é um filme que chega pro espectador com uma atitude meio despretensiosa, do tipo: "veja que curiosa essa história real que eu tenho pra contar". É difícil um filme assim se tornar uma experiência arrebatadora, memorável, o filme da vida de alguém, por mais bem feito que seja. Ele não pretende lidar com os valores mais importantes pro espectador, não pretende criar grandes emoções, tocar sua alma, não pretende inovar, explorar todo o potencial criativo do cineasta - quer apenas contar uma história curiosa de maneira divertida e competente. Há um limite pro quão satisfeito eu consigo sair de uma sessão assim, mas dentro dessa proposta, é um filme bem feito.

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American Made / EUA / 2017 / Doug Liman

FILMES PARECIDOS: Cães de Guerra (2016) / O Conselheiro do Crime (2013) / Selvagens (2012) / Prenda-me Se For Capaz (2002)

NOTA: 7.0

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Polícia Federal - A Lei É Para Todos

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme obviamente coloca sua função documental / jornalística / ideológica acima do propósito artístico. Não há nenhum tipo de sutileza - o filme não exige que o espectador interprete qualquer coisa, perceba qualquer coisa num nível mais profundo. Se comunica apenas no nível superficial das informações práticas. Esse narrador dizendo coisas como "Nossa história começa..." só contribui pro aspecto didático da produção.

- Quando o filme tenta sair do jornalismo e explorar a vida pessoal dos personagens, dar uma cara mais de "filme", nada funciona... Os personagens são unidimensionais, não têm personalidades convincentes... Eles soam tão autênticos quanto políticos em propagandas eleitorais, quando aparecem visitando comunidades carentes, expondo seus lados "humanos", etc.

- Pelo menos é melhor que Real - O Plano por Trás da História, pois além de ser muito mais esclarecedor em relação à história, aqui pelo existem personagens inocentes, lutando por uma boa causa (em Real não dava pra simpatizar nem pelo protagonista). Acaba sendo quase como uma versão mais simplória de Spotlight: Segredos Revelados - uma trama de sucesso sobre um grupo de investigadores revelando um grande escândalo nacional. Então a narrativa é razoavelmente envolvente, prazerosa, mas sem dúvida não é uma obra que se sustenta sozinha. Esse filme visto num outro país, numa outra época, certamente não terá o mesmo impacto do que visto no Brasil, por alguém familiarizado com os fatos (e que seja contra o PT, preferencialmente). Ele depende de várias informações externas pra funcionar.

- Apesar do filme se posicionar como imparcial, apenas uma crítica à corrupção, ele claramente enfatiza mais a corrupção do PT do que dos outros partidos (o que talvez seja justo, considerando os últimos anos). Mas intelectualmente acaba parecendo um filme tímido, politicamente correto, pois ele não ousa criticar o PT enquanto ideologia, sugere que a única coisa que ele tem contra o partido é a corrupção (quando na verdade o filme parece ter outras objeções além dessa). É um pouco como Spotlight também, que ataca a igreja Católica mas apenas no nível óbvio dos casos de pedofilia, algo que nenhum espectador iria questionar. Em nenhum momento ele faz uma crítica mais fundamental aos valores da igreja em si, etc.

- O Ary Fontoura está ótimo como o Lula. Tem o equilíbrio perfeito de deboche, carisma e dissimulação. Marcelo Serrado como Sérgio Moro também foi uma ótima escolha.

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CONCLUSÃO: Fraco como cinema, mas bem sucedido dentro da proposta do filme.

Polícia Federal - A Lei É Para Todos / Brasil / 2017 / Marcelo Antunez

FILMES PARECIDOS: Real - O Plano por Trás da História (2017) / Margin Call - O Dia Antes do Fim (2011)

NOTA: 6.0

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

It: A Coisa

NOTAS DA SESSÃO:

- Logo no início, na cena em que o Georgie desce até o porão pra pegar a cera, é um pouco inapropriado criar um longo momento de suspense, sendo que o filme ainda nem disse sobre o que será a história, nem sugeriu que algo sobrenatural possa existir, etc.

- A produção em geral é um acerto. Os atores que fazem os garotos são bons (exceto talvez o que faz o hipocondríaco, que soa forçado), o visual de filme dos anos 80 convence, a cidadezinha e as locações criam um clima nostálgico agradável, a trilha é boa, etc. E obviamente, o livro Stephen King é um ótimo material... Mas como ele já tem uma adaptação famosa, a tarefa desse filme aqui é mais difícil, pois ele tem que ter méritos maiores pra se justificar.

- A cena do bueiro é divertida. O grande problema é que depois da performance icônica do Tim Curry no filme de 1990, é praticamente impossível um novo palhaço não decepcionar. É como tentar fazer um remake de Esqueceram de Mim como um "novo Macaulay Culkin". É algo que não existe; a comparação vai sempre prejudicar o filme.

- É um pouco estranho esses outros monstros aparecerem logo no começo (a mulher que sai do quadro, etc.) enquanto o palhaço ainda nem foi estabelecido como o vilão principal. O conceito fica meio confuso. Além disso esses outros monstros não são tão bem feitos ou assustadores. O menino que desce a escada sem cabeça, por exemplo, e daí começa a correr loucamente, acaba parecendo meio ridículo da maneira como a cena foi executada. Muito do impacto do filme antigo vinha das cenas de terror acontecerem em ambientes inofensivos, cotidianos, envolvendo objetos inocentes, que subitamente se transformavam em algo assustador (como em A Hora do Pesadelo). Agora um quadro que já é assustador virar um monstro assustador num quarto assustador... não há contraste, é outro estilo de terror.

- Depois de 1 hora de aparições de monstros, o filme começa a ficar meio repetitivo. E é falso depois de tantas aparições as crianças não estarem apavoradas, continuarem com uma rotina normal, não contarem pra ninguém das visões que estão tendo, etc. O pior momento é quando todos os amigos ajudam a Beverly a limpar o banheiro sujo de sangue, como se aquilo fosse uma faxina comum. Certamente nesse ponto todos já deveriam estar em pânico e discutindo abertamente a situação - e não se divertindo, limpando litros de sangue sobrenatural ao som de uma trilha divertida!

- No antigo, o que dava medo no palhaço era a performance do Tim Curry - a personalidade carismática, expansiva, brincalhona, em contraste com a aparência medonha. Bastava apontar a câmera pra ele que já era algo assustador (em plena luz do dia, sem truques de edição, sem cortes, sem efeitos, etc). Aqui o filme fica tentando dar medo através de jump scares, técnicas de filme de terror barato - Pennywise surgindo subitamente atrás da bexiga, ou correndo em direção à câmera em fast forward com efeitos sonoros clichê, etc.

- Quando os amigos finalmente conversam sobre terem visto o palhaço, em vez disso gerar um clima assustador, a situação é logo quebrada por uma piadinha de um deles ("isso é coisa de virgem?"). O filme não sabe diferenciar entre alívio cômico e piadas que arruinam todo o clima do filme. Na cena da guerra de pedras, há novamente um uso extremamente inapropriado de humor. O que era pra ser um momento de heroísmo, superação, fica parecendo uma comédia besteirol (não dá nem pra dizer que o humor não foi intencional, por causa da música usada).

- SPOILER: Um jump scare que funcionou bem na minha opinião é quando eles estão assistindo os slides, e o palhaço pula da tela.

- Mesmo depois deles terem reconhecido a existência do palhaço, o comportamento dos garotos continua artificial. Por exemplo: eles todos toparem ir até a casa abandonada, entrarem fazendo piadinhas como se não estivessem nem aí... Daí, quando o filme precisa que algum personagem realmente entre em pânico, comece a gritar, isso não convence - é incoerente em relação à atitude de antes. No filme dos anos 90, o medo era algo intenso, as emoções dos personagens eram "maiores que a vida" (me vem à mente aquela cena do menino que fica com os cabelos brancos só de olhar pra Coisa, ou então o Stan, depois de adulto, que se suicida na banheira só por ficar sabendo que o palhaço voltou). Aqui nada é "maior que a vida" - em qualquer momento pode surgir uma piadinha pra quebrar o clima (por exemplo: quando o menino hipocondríaco vê o monstro leproso e desmaia de maneira cartunesca, ou depois quando ele confunde "placebo" com "gazebo" no meio de uma cena séria). Não chamaria isso nem de Romantismo Reprimido, e sim de Anti-Romantismo (vou discutir isso numa outra postagem).

- SPOILER: Depois que o palhaço dá uma trégua e todo mundo volta pra vida normal, há 2 sequências seguidas que são muito parecidas, e parecem fazer parte de um outro filme: quando 2 dos personagens secundários se vingam de seus pais abusivos (o bully que esfaqueia o próprio pai, depois a Beverly que ataca o pai no banheiro). Aliás, os pais nesse filme parecem monstros até piores que o Pennywise. Não fica muito claro também se essas vinganças foram espontâneas, ou controladas pelo Pennywise (afinal ele estava presente nas 2 cenas). Quer dizer que o palhaço "ajuda" também as crianças a fazerem certas coisas?

- Quando a Beverly é raptada pelo Pennywise e todos decidem se unir para salvá-la, eles não têm uma estratégia muito sólida pra matar o palhaço. Levam lanças, armas comuns... Mas não parece nada provável que um monstro extra-dimensional possa ser derrotado dessa forma.

- Ridículo o gordinho acordar a Beverly do transe com um beijo de "amor verdadeiro", parodiando A Bela Adormecida.

- SPOILER: A maneira como o Pennywise é derrotado é insatisfatória, pois não há muita consistência na ideia de que o medo das crianças é o que dá poder a ele... Ou seja, que quando as crianças não têm medo, o palhaço não consegue derrotá-las. Em vários momentos elas estavam com medo sim e mesmo assim o palhaço não conseguiu matá-las. E quando ele foi ferido pela lança da primeira vez, não ficou claro que o motivo foi porque elas não estavam com medo naquela hora. O filme é muito mais uma homenagem aos "losers", aos excluídos, do que um confronto empolgante contra uma força do mal.

- SPOILER: Que exagero esse pacto que os amigos fazem no final, dando as mãos cheias de sangue... Bizarro também a cena do beijo - a Beverly sujando o rosto do Billy com sangue. É pra sugerir que ela é a Coisa? Que o Pennywise também pode "possuir" pessoas? Nada disso foi pré-estabelecido, então fica apenas parecendo uma atitude sem-noção.

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CONCLUSÃO: Estimulante, bem feito em termos de produção, na aparência externa do filme, mas altamente falho na direção, no desenvolvimento da história, na construção do terror, no comportamento falso dos personagens, etc.

It / EUA / 2017 / Andy Muschietti

Postagens relacionadas: Romantismo Reprimido

FILMES PARECIDOS: Annabelle 2: A Criação do Mal (2017) / Stranger Things (2016) / Super 8 (2011)

NOTA: 4.5

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Como Nossos Pais

NOTAS DA SESSÃO:

- A cena inicial no almoço já resume bem o tom do filme: um grupo de pessoas se comportando de maneira forçada só pro filme provar que relacionamentos são difíceis, conflituosos, que a vida é complicada. Todos os personagens agem de maneira condenável - não há 1 pessoa admirável e inocente pra plateia se apoiar, e o filme também não diz que ninguém está errado. Apenas mostra "a vida como ela é".

- A filha (Rosa) é a personagem mais irritante de todas. Só sabe reclamar, é agressiva sem necessidade com os filhos, com o marido, com a mãe (dá até certo prazer quando a mãe cala a boca dela revelando que ela é filha de outro homem). Mas em seguida vem a frustração de descobrir que ela (Rosa) será a protagonista da história e teremos que aguenta-la o filme inteiro.

- Os diálogos às vezes parecem improvisados pra ganharem um ar de realismo, mas na prática acabam parecendo mal escritos, amadores, conscientizam ainda mais a gente de que estamos vendo um filme (e não "a vida como ela é").

- O filme é uma série de situações desagradáveis: a discussão com o pai fracassado que parou de pagar as mensalidades da escola da filha, o erro que a Rosa comete no trabalho e resulta em discussões com o chefe, depois ela chegando em casa e discutindo com o marido sobre dinheiro, sobre a relação, sobre quem se sacrifica mais pelo outro, tendo inúmeras discussões com as filhas, o detalhe do leite que ferve e suja o fogão, o pai que perde a hora da escola e tem que acordar as filhas correndo, etc. E não é como em filmes hollywoodianos onde no começo a vida da protagonista está um inferno, mas daí ela larga tudo e parte numa grande aventura. Não. Aqui a ideia é mostrar a "realidade" como um fim em si. Mostrar o lado falho do ser humano, mostrar que a cineasta é "madura", que pra ela cinema não é sobre entreter o público, sobre mostrar coisas incomuns, interessantes, pessoas virtuosas, dar soluções, e sim sobre encarar os aspectos mais desagradáveis do cotidiano.

- A Rosa tem ódio da mãe, mas daí a mãe revela que tem câncer e ela não pode mais ter ódio, pois tem que ter pena... Depois em casa ela está triste, mas daí tem que ler uma história pras filhas dormirem, então ela tem que fingir que está feliz... Depois ela tem que hospedar a meia-irmã adolescente em casa contra sua vontade, pois não pode dizer não pro pai, que é um pobre coitado maior que ela... O filme não tem uma história, um propósito positivo, quer apenas dizer pra plateia "vejam como a vida é dura (especialmente pra mulher moderna), como temos sempre que nos sacrificar uns pelos outros, como as relações humanas nunca são ideais, mas mesmo assim não podemos viver sem elas" - e fica jogando uma cena aleatória após a outra pra reforçar essa ideia.

- Pelo menos não é algo 100% Naturalista como alguns outros filmes nacionais recentes (Corpo Elétrico, por exemplo), pois no meio das banalidades do cotidiano, o filme cria 1 ou outro ponto de interesse na história: o encontro com o pai biológico, as traições no casamento, o futuro profissional de Rosa, a doença da mãe, etc. Então não é um registro totalmente cru de uma fatia da sociedade, sem nenhum tipo de drama ou senso de direção.

- O pai da Rosa é uma figura deprimente: o artista pseudo-intelectual, avoado, que não funciona no mundo prático, fala de maneira subjetiva, desestruturada, imprecisa, mas com "humanidade" e algum tipo de "sabedoria mística" (e o filme acha ele o máximo).

- Forçada a discussão da Rosa com as lésbicas no sofá. Ou depois a conversa da Rosa com o Pedro na praia. O filme tem umas cenas artificiais que só servem pra enfiar esses discursos feministas / progressistas no meio da história e expor a ideologia da cineasta.

- SPOILER: A maneira como a morte da mãe é mostrada é bonita (ela tocando piano e o enterro sendo mostrado paralelamente em flash-forward). Não precisou ficar apelando pro sofrimento, pra agonia no hospital, etc. A mãe não tinha medo da morte, então foi uma maneira elegante de dar fim à personagem, que era a mais interessante do filme.

- Toda essa ideia de que a vida é cíclica (Rosa regando as plantas como fazia a mãe, etc) é pra parecer poética, bonita, mas na realidade é deprimente, determinista... Quer dizer que nossas vidas não estão sob nosso controle, que não somos independentes, que nossos destinos não são determinados por nossas decisões, nossos valores, e sim por um destino já traçado, que iremos repetir aquilo que nossos pais fizeram, cometer os mesmos erros, viver as mesmas decepções, etc.

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CONCLUSÃO: A chatice "progressista" básica do cinema nacional.

Como Nossos Pais / Brasil / 2017 / Laís Bodanzky

Postagens relacionadas: Filmes Bem vs. Mal Intencionados / Senso de Vida / Naturalismo vs. Romantismo

FILMES PARECIDOS: Aquarius (2016) / Fala Comigo (2016) / Eu, Daniel Blake (2016)

NOTA: 3.5

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Atômica

NOTAS DA SESSÃO:

- Isso não é uma crítica ao filme em si, mas à versão brasileira: detesto quando eles refazem o logotipo do filme nos créditos iniciais pra traduzir o título pro português. Causa o mesmo estranhamento que a dublagem, só que num nível visual.

- O filme tem um visual chamativo, bem cuidado, mas já começa com uma atitude meio duvidosa: a tentativa de tornar a violência cool, ou a atitude mal humorada da Charlize Theron (que pelo visto era pra torná-la uma heroína mais atraente). Apesar da Charlize ser boa atriz, não acho que esse seja o papel ideal pra ela. Ela é uma atriz sofisticada, madura... E a Lorraine é pra ser uma personagem ousada, perigosa, sexy - combinaria mais com uma Scarlett Johansson, por exemplo.

- A trama começa mal. É um típico "filme de serviço" onde a protagonista recebe ordens e parte numa missão desinteressante, atrás de um McGuffin qualquer (o microfilme), sem nada que de fato envolva a plateia.

- O grande problema é que o filme está mais preocupado com estilo do que com história. Em vez de começar com um bom roteiro, e depois pensar na aparência, o cineasta parece ter começado com um look - com essa coisa anos 80, colorida, cheia de neons, femme fatales, músicas pop da época - e depois pegou uma trama genérica de espionagem qualquer só pra encher linguiça.

- Essa ideia de colocar músicas inadequadas de fundo (como "Father Figure" do George Michael) durante cenas de violência ainda soava original quando John Woo fez A Outra Face em 1997, mas já foi tão usado que hoje em dia parece um artifício barato (além de ser uma atitude cínica que não tem muito a dizer, apenas banaliza a violência, tira o drama da cena em favor do estilo).

- A cena de ação dentro do cinema também não tem a menor necessidade de existir. Eles só entraram aí pois o diretor achou que seria legal ter um tiroteio em frente a uma tela de cinema passando Tarkovsky. A personagem ter um romance lésbico também parece bem aleatório, só pro filme ficar mais "edgy" e estimular o público masculino.

- As cenas de luta / tiroteio / perseguição de carro não são das melhores. Até porque o filme está sendo contado em flashback, narrado por ela, então sabemos que ela não pode morrer em nenhum desses confrontos. E não há conflitos morais, carga dramática... Todo mundo é suspeito no filme, ninguém é confiável, então se alguém se revelar um traidor não será a menor surpresa (até porque em filmes de espionagem isso é o maior clichê).

- Bem, pelo menos há 1 sequência "show stopper" no filme - o tiroteio que começa na escadaria e depois termina na perseguição de carro. Os stunts são muito bem feitos (parece mesmo a Charlize Theron fazendo boa parte das lutas), há um realismo que torna tudo ainda mais aflitivo, há uns planos sequência impressionantes principalmente na fuga de carro... Parece uma cena dirigida por outra pessoa, e não pelo mesmo cara que estava dirigindo as cenas de ação até agora.

- SPOILER: Mais pro final a história fica um pouco melhor, ganha uma dimensão mais pessoal quando a Charlize descobre que foi enganada, começa a tramar a vingança contra o James McAvoy, etc. Embora nos últimos minutos a trama fique confusa demais - há um excesso de reviravoltas e já não se sabe direito quem estava enganando quem ao longo do filme (e como não há relações bem construídas no filme, essas revelações não chegam a empolgar a plateia).

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CONCLUSÃO: Visual marcante, 1 sequência memorável de ação, mas a trama é genérica e pouco envolvente.

Atomic Blonde / Alemanha, Suécia, EUA / 2017 / David Leitch

FILMES PARECIDOS: A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017) / John Wick: Um Novo Dia Para Matar (2017) / Lucy (2014)

NOTA: 5.5

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Como a Cultura Encomenda Seus Ídolos

Você já se perguntou por que não temos um Mozart hoje em dia? Um Leonardo Da Vinci? Ou mesmo um Michael Jackson? Ou por que no Brasil não temos cineastas como vemos nos EUA? Com 7 bilhões de pessoas no mundo (200 milhões só no Brasil), certamente não pode ser um problema de falta de cérebros, de "matéria prima". E na era da internet, nem de falta de acesso à informação. Se hoje em dia temos mais gente, em condições melhores, com muito mais informações e ferramentas disponíveis do que em qualquer outra época, seria de se esperar que a cultura estivesse produzindo coisas muito mais admiráveis do que as que eram produzidas há várias décadas ou séculos atrás. No entanto, não é o que vemos por aí (pelo menos na área da cultura - em ciência e tecnologia ainda vemos bastante progresso). Isso ocorre, na minha opinião, porque cada cultura colhe aquilo que planta - e recebe os ídolos que encomenda.

Não estou querendo invalidar o poder que cada indivíduo tem de se desenvolver independentemente da cultura ao seu redor, estou apenas apontando o papel que a cultura exerce nesse processo: é como a relação entre uma criança e a casa em que ela cresce. Imagine uma criança com uma inclinação para as artes, mas que cresça em uma casa de médicos, que achem cultura algo superficial. Ou uma criança com uma inclinação para as ciências, mas que seja bombardeada de noções religiosas desde que comece a pensar. Se elas forem independentes o bastante, elas ainda podem crescer e desenvolver seus dons naturais, apesar das influências externas. Ainda assim, me pergunto o quão mais longe elas não poderiam ir caso crescessem num ambiente propício, que incentivasse esses dons desde os primeiros anos.

A cultura (de um país, de uma época) é como essa "casa", ou esses "pais", que podem incentivar ou inibir certas qualidades em seus filhos.

O Michael Jackson é um exemplo claro de um ídolo "produzido" por sua cultura. Não só a casa em que ele cresceu (literalmente) era o ambiente perfeito pra um cantor/dançarino descobrir e desenvolver seus talentos (sem querer defender os abusos do pai), como a cultura americana daquela época era também o solo mais fértil pra alguém com tais qualidades surgir. Era uma época em que talento e virtuosismo ainda eram recompensados (esperava-se que artistas fossem completos, multi-talentosos), onde entretenimento popular e inocente eram levados a sério, movimentavam uma indústria multi-milionária, era também um período em que mudanças sociais começavam a abrir portas para artistas negros. E assim, através das forças do mercado e de um processo de seleção natural, a cultura "colheu" nos anos 70/80 o ídolo que ela plantou.

Teria ele virado o Michael Jackson que conhecemos caso tivesse crescido numa cultura que, em vez de virtuosismo e ambição, achasse mais admirável a humildade, a moderação? Teria o pai Joseph Jackson ensaiado os filhos exaustivamente todos os dias pra se tornarem os melhores performers, se o público daquela época não desse muito crédito pra esse tipo de habilidade? Teria ele criado um grupo como os Jackson 5 numa cultura em que alegria e inocência fossem consideradas coisas ridículas, e o "sexy" fosse ser cínico, pessimista?

Claro que uma pessoa pode decidir ir contra todas as tendências culturais e se tornar excelente no que ela faz mesmo assim. Mas quase sempre, os astros de sua época não são essas flores solitárias que brotam no meio de um deserto, e sim o resultado de um longo processo de seleção natural, dentro de uma área onde existe um grande mercado e muitas pessoas de talento competindo pra se destacar.

Você não terá esse grande mercado e essa seleção natural acontecendo em áreas ignoradas ou desprezadas pela cultura. Em virtudes consideradas "fora de moda". Você só vai ter isso no que for considerado "quente" no momento, no que for "cool", popular, no que inspirar na população um real senso de possibilidade, de reconhecimento, de sucesso prático e comercial.

No Brasil, nós nunca tivemos, por exemplo, um solo fértil para o surgimento de um Stanley Kubrick, ou um Martin Scorsese no cinema. Agora pense no futebol: quantas crianças estão nesse momento praticando, competindo, com ídolos como Pelé e Neymar em mente, e que daqui a alguns anos poderão estar entre os melhores jogadores do mundo.

Pense também no "mercado" de drag queens, e no quanto ele deve ter crescido nos últimos anos simplesmente pelo fato da cultura ter tornado isso cool de uma hora pra outra. Um artista como Pabllo Vittar dificilmente surgiria fora de contexto, se a cultura não estivesse já preparada pra algo do gênero. Há 15 anos atrás, ele certamente não teria a mesma abertura pra aparecer na TV, tocar nas rádios, etc. E o importante não é nem a questão da abertura da mídia - o importante é entender que há 15 anos atrás, Pabllo Vittar provavelmente nem teria existido! Não haveria RuPaul's Drag Race na TV pra inspirar o jovem Pabllo, fazê-lo sonhar, mostrar que ele poderia ter uma carreira de sucesso como drag, e também não haveria um programa como Amor e Sexo na Globo, perfeito pra alavancar sua carreira.

Quando a cultura ao seu redor celebra aquilo que você tem a oferecer, isso te dá um incentivo único pra desenvolver suas habilidades. A possibilidade de sucesso se torna algo palpável, real. Você vê outras pessoas como você se destacando por aí, e isso te estimula, faz você querer praticar, se tornar melhor, além de te dar um referencial. Sua energia criativa está alinhada com a energia da cultura, e com isso o universo conspira ao seu favor.

Se aquilo que você tem a oferecer é desprezado pela cultura ao seu redor, se você só enxerga cinismo, desprezo e fracasso comercial pela frente, você dificilmente investirá o esforço necessário pra se tornar um mestre naquilo. Você pode tentar se adaptar, tentar fazer o que a cultura está exigindo, mas assim dificilmente será tão bom quanto seria se estivesse alinhado com seus dons naturais.

Um caso de adaptação "bem sucedida" é por exemplo o do Justin Bieber, que começou como uma espécie de menino prodígio, inocente, que cantava bem, tocava uma série de instrumentos, até que seu primeiro grande hit "Baby" foi também o vídeo com o maior número de dislikes da história do YouTube, e virou alvo de ridicularização, teve inúmeras paródias, etc. Nos anos seguintes, ele foi se adaptando, se conformando, até que conseguiu finalmente conquistar o grande público - não exibindo suas qualidades originais, mas adotando uma atitude rebelde, mudando totalmente sua identidade visual, e ficando mais em harmonia com o que é considerado admirável hoje em dia.

Aquilo que define o espírito de uma época nada mais é do que o espírito que a cultura decidiu ser "legal" em determinado momento. Pense na música dos anos 70, na Era Disco. As pessoas não eram mais felizes naquela época do que elas são hoje em dia. A realidade era tão real quanto sempre foi, igualmente complexa, havia a mesma quantidade de pessoas felizes, entediadas, otimistas, deprimidas, etc. A diferença é que durante aquela época, o "cool" se tornou ser alegre, hedonista. E então todo mundo saiu na corrida pra expressar esse tipo de coisa (honestamente, ou por puro pragmatismo, só porque era o que estava vendendo). Isso criou um mercado, um processo de seleção natural, e a partir daí surgiram vários artistas e bandas excelentes tocando esse tipo de música. Teriam os Bee Gees feito coisas tão boas se tivessem surgido no mercado nos anos 2000? Provavelmente não. O talento pra escrever algo como "Stayin' Alive" ainda estaria com eles. Mas a cultura estaria recompensando outro tipo de talento, incentivando outro tipo de atitude, e algo como "Stayin' Alive" provavelmente nem teria surgido.

Da mesma forma, hoje está todo mundo na corrida pra celebrar a diversidade, pra ser "socialmente relevante", se posicionar politicamente - não só as pessoas que de fato têm algo a dizer sobre o assunto, mas também pessoas que jamais tocariam nessas questões, e só o estão fazendo pois isso está vendendo.

Pense no que seria de Steven Spielberg se ele tivesse começando sua carreira nos dias de hoje. O que ele faria com seu talento natural pra criar otimismo, celebrar o espírito da infância - um dom que estava em demanda nos anos 80 mas não está mais atualmente? Ou pense no que seria de Christopher Nolan se ele tivesse começado sua carreira na época de Spielberg. O que ele faria com seu senso de vida trágico e sua inclinação pro subjetivismo, narrativas não-lineares, numa época em que nada disso estava em alta?

Poucos são aqueles que têm uma visão pessoal inabalável e estão dispostos a lutar contra todas as forças externas pra realizar essa visão. Olhe para os seus ídolos e se pergunte: quantos deles teriam ido em frente e desenvolvido os dons que desenvolveram, realizado as coisas que realizaram, mesmo que a cultura não estivesse "encomendando" algo do tipo?

Que o espírito de uma cultura tem esse poder de criar e nutrir seus ídolos é algo bastante compreensível. A pergunta que fica no ar é: e o que faz o espírito de uma cultura mudar? O que faz certos valores serem celebrados numa época e rejeitados em outra?

Isso provavelmente é resultado de uma série de fatores, impossíveis de serem todos rastreados. Desde eventos globais - como uma guerra, o 11 de Setembro, que mudam a percepção das pessoas sobre o mundo ou sobre uma determinada cultura; revoluções na ciência, na tecnologia, que mudam os hábitos das pessoas, como o surgimento das redes sociais, etc. Acontecimentos políticos, econômicos... E até a influência de indivíduos especiais - desses que conseguem ir contra a cultura e apresentar um novo jeito de agir, de pensar.

Outro fator relevante é a dinâmica que existe entre uma geração e a geração seguinte. Quase sempre uma nova geração irá rejeitar os valores da geração anterior, e o motivo disso talvez seja o fato de que a maioria das pessoas se torna desiludida na vida adulta - e tende a culpar a cultura de sua infância pelos seus problemas e frustrações. Por exemplo: se você cresceu numa época onde a cultura celebrava ambição e individualismo, e se torna uma pessoa infeliz na vida adulta, provavelmente você irá educar seus filhos de maneira diferente, suprimindo esses valores. E seus filhos, quando se tornarem adultos e desiludidos, irão rejeitar os valores sob os quais você os criou, e buscar algo ainda diferente. Essa dinâmica impede que os valores dominantes de uma cultura permaneçam no topo por muito tempo - mesmo quando são valores positivos.

Então por que não temos um Mozart nos dias de hoje? Simplesmente porque a cultura não está pedindo por um. Um garoto com um potencial equivalente para a música clássica hoje em dia não terá um senso de que, se ele desenvolver seus dons ao máximo, ele poderá "bombar" por aí, ser apreciado, se sustentar com suas composições - não existem outros "Mozarts" famosos em atividade pra poder inspirá-lo, criarem um senso de competição, músicos fazendo o que ele quer fazer e se dando bem.

Por onde andam os Michael Jacksons dos dias de hoje? Por que nunca mais fizeram um filme como Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu (como questionou recentemente Judd Apatow)? Esses artistas estão todos por aí, tentando se adaptar à cultura atual (e realizando coisas piores do que poderiam realizar), ou então cruzando com você pelas ruas, indo pra trabalhos comuns, onde eles acham que serão melhores recompensados.

As sementes pra todo tipo de talento e habilidade existem em todos os momentos, em todas as épocas e regiões. Mas se a cultura não "regar" essas sementes, elas dificilmente terão estímulo pra crescer e atingir o máximo de seus potenciais.

domingo, 27 de agosto de 2017

A Torre Negra

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme já começa com o pé esquerdo - não por causa de algum erro grotesco e fácil de identificar, mas por uma série de detalhes que somados vão dando a impressão de que há algo de errado com a produção.  O pôster, o título, nada dá a impressão de um filme tão fantasioso, mas logo na primeira sequência já somos expostos a um universo cheio de aliens, efeitos especiais escapistas, o que cria estranhamento e um certo anticlímax. O protagonista (Jake) é mal apresentado, não é carismático... Por um lado o ator parece um sósia do Justin Bieber mais novo (da época em que ele era certinho e exemplar e ninguém gostava dele), mas daí é pra gente acreditar que o personagem é do tipo desajustado, que sofre bullying na escola, que tem problemas em casa com os pais. A trama tem uma série de clichês de filmes de fantasia dos anos 80, mas em vez de assumir o clima retrô e ingênuo, o filme fica tentando parecer moderno, criar um clima sombrio, usa uma estética de série de TV atual, etc. Há um problema generalizado de tom.

- Muito rápida a maneira como Jake encontra a casa abandonada, abre o portal e vai parar no outro mundo. E as ideias são meio ruins. Como é que existe uma casa dessa no meio de Nova York, com acesso fácil pra qualquer um? E que história é essa da casa tentar engolir ele antes dele passar pelo portal? E  por que o cérebro de uma criança pode destruir a Torre Negra? São uns conceitos estranhos e mal explicados.

- O Idris Elba é sempre respeitável, mas a química entre ele e o garoto é péssima. Saudades de Edward Furlong e Schwarzenegger em Terminator 2.

- Mal explicado o vilão e a motivação dele. Se ele quer dominar o mundo, por que ele precisa destruir a Torre Negra e deixar esses monstros entrarem? Como são esses monstros, o que eles fazem? Com eles a solta, será mais fácil pro Matthew McConaughey dominar o mundo? Eles não irão destruir tudo? E com todo o universo em perigo, será mesmo que só haveria 1 único homem interessado em deter o vilão (e capaz disso)? E só por ser um bom pistoleiro? O universo todo do filme é mal elaborado. Uma hora parece que o filme é uma fantasia futurista meio Star Trek, outra hora já estamos num vilarejo de faroeste... Existem vários mundos paralelos? Um é futurista, o outro é de época, etc? É isso? E por que as pessoas falam inglês em todos?

- É uma cena ruim após a outra: quando o Jake acha que vê o pai, daí ele se transforma naquele monstro ridículo que é facilmente assustado pelo Idris Elba. Ou depois o vilão indo até a casa da mãe do Jake e fazendo joguinhos psicológicos com ela, como se fosse um criminoso comum, e não um ser de outra dimensão tentando destruir o mundo... O filme é uma bagunça: um personagem sem nenhum carisma que vai parar num mundo fantasioso mal elaborado e pouco atraente, e lá se envolve numa briga que não é dele.

- Roteiro mal estruturado. Não sabemos o que os mocinhos devem fazer pra encontrar e matar o vilão, em que estágio da jornada eles estão, que obstáculos precisam superar... Eles mal interagem com o vilão ao longo do filme, o que torna o conflito vago e impessoal.

- SPOILER: Um horror todo esse duelo final. A cena de ação mais elaborada nem é contra o vilão e não parece ter a menor necessidade de existir (o Idris Elba naquela igreja atirando em todo mundo igual Matrix). Não sabemos quais as regras desse mundo: Jake começa a revelar poderes que nem sabíamos que ele tinha (ele abre o portal com a mente, depois praticamente ressuscita o Idris Elba). Com poderes tão épicos em jogo, seria necessário um "pistoleiro" habilidoso pra matar o vilão? O clímax é muito mal construído: o Idris usa aquela tática absurda pra atirar no vilão, e em alguns segundos o Jake já é resgatado, todo o prédio explode, e o mundo está a salvo. Não dá nem tempo da gente entrar no clima de comemoração.

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CONCLUSÃO: Simplesmente errado.

The Dark Tower / EUA / 2017 / Nikolaj Arcel

FILMES PARECIDOS: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (2017) / O Destino de Júpiter (2015) / Dezesseis Luas (2013)

NOTA: 3.5

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Bingo - O Rei das Manhãs

NOTAS DA SESSÃO:

- Independentemente do filme ser bem feito ou não, ele já começa ganhando só por causa da premissa, por ter pego uma história tão curiosa pra contar, por se passar nesse ambiente fascinante que era a TV infantil brasileira dos anos 80/90. Só que além de ser uma das melhores ideias do cinema nacional dos últimos anos, é também o filme nacional mais bem realizado dos últimos anos. Tudo é um acerto, desde a performance fenomenal do Vladimir Brichta, até a trilha sonora 80's, a direção de arte, os efeitos gráficos fazendo referências a VHS, a fotografia, edição, etc. É uma produção nível Oscar certamente.

- Ótimo o começo. O filme engana o espectador dando a impressão que o Vladimir já é o Bingo e está prestes a entrar no ar, quando de repente descobrimos que é uma pornochanchada (o toque do filho estar presente torna tudo ainda mais cômico). O personagem é ótimo (ele improvisando falas na cena da novela pra ter mais tempo no ar, etc). Todas as peças do roteiro estão bem posicionadas: o personagem é gostável, tem um talento especial não reconhecido, está numa situação difícil, sabemos qual o desejo dele (é legal o diálogo com a mãe, quando ela diz que eles são como mariposas e precisam de "luz" = holofotes).

- Muito boa a cena da audição pro Bingo. A gente acredita na reação da equipe, pois vimos o Vladimir de fato fazer algo brilhante e inesperado em frente às câmeras. O filme mostra pra plateia por que o personagem é especial, por que ele se destaca dos outros e merece nossa atenção (não é como em O Palhaço, por exemplo, onde as crianças dão risada do Selton Mello no circo, mas nós no cinema não vemos graça nenhuma).

- Fantástica essa autoconfiança do personagem (ele querendo mudar o roteiro, discutindo com os produtores do programa, etc) - é como se ele estivesse num outro plano de consciência. Um cara como esse num ambiente tão quadrado e cheio de regras é uma situação divertida que automaticamente gera uma série de conflitos e cria interesse pela história (mais tarde quando ele usa drogas na igreja é mais um bom uso de contraste - de colocar o personagem num ambiente conservador pra enfatizar o comportamento libertino).

- As cenas dos primeiros programas ao vivo (quando ele começa a fugir do script) são muito boas. Só é meio desnecessário mostrar ele ir treinar humor com um palhaço de circo. O problema das crianças não estarem rindo não é o de ele não ser engraçado, e sim o fato do roteiro do programa ser ruim e ele não poder improvisar. Ele ir treinar com um palhaço profissional dá a impressão que ele ainda não estava seguro pra estrelar o programa, o que não é verdade.

- SPOILER: Vários momentos hilários durante os programas: o Bingo tocando "eu fui dar, mamãe" ao vivo, a ligação do menino que xinga ele pelo telefone, etc. E é legal que apesar do show dar certo, ainda sentimos que o filme está crescendo, que eles ainda não chegaram no auge, pois o programa ainda não tem a audiência ideal, eles precisam inovar, etc.

- SPOILER: Demais ele levar a Gretchen no programa. Ou depois se "vingando" da Xuxa. O filme é um sonho em termos de referências pop (toca "Tudo Pode Mudar" do Metrô!). É uma ideia divertida após a outra. E como é bom lembrar dessa época em que os programas infantis entendiam que crianças não são politicamente corretas.

- A dinâmica entre o Vladimir e a Leandra Leal é legal (ela dividida entre seu autocontrole e o encanto por ele). Na cena do restaurante, quando ela fala que sente prazer em dizer o nome de Jesus, ela realmente convence como uma mulher religiosa - se defende como um religioso inteligente realmente se defenderia, não parece uma personagem caricata.

- Não sou muito fã dessa estrutura típica de filmes biográficos, pois o terceiro ato costuma ser sempre sobre a decadência, e a história perde energia. Já vimos tudo o que tínhamos pra ver de bom, agora é só acompanhar o personagem se perdendo nas drogas, começando a fazer besteiras no trabalho, perdendo tudo o que conquistou, etc. O filme não chega a se tornar pessimista, mas é aquela atitude tediosa de mostrar os males do sucesso (o roteirista Luiz Bolognese também escreveu Elis que tinha o mesmo formato).

- O Vladimir tem aquela ideia de estrelar uma nova novela, mas depois o assunto é esquecido pelo roteiro.

- Muito boa a imagem da mãe do Vladimir indo embora derrotada pelo corredor da casa, enquanto do lado esquerdo da tela vemos a pintura dela nos tempos áureos. É o tipo de direção eficaz, que transmite ideias pra plateia de maneira objetiva.

- Os acontecimentos paralelos à trama principal (a morte da mãe, o drama do filho) não soam supérfluos como em muitos filmes biográficos, afinal estão todos conectados ao tema do filme, à questão do sucesso, do preço da fama (a mãe também era artista, etc).

- SPOILER: Quando ele é substituído por outro palhaço e é mandado embora, a cena é muito bem dirigida, econômica. Entendemos tudo visualmente, sem a necessidade de 1 palavra.

- Mesmo nesse ato final (que não é tão bom quanto o resto do filme), o filme tem algumas cenas interessantes. O filho bebendo whisky pra tentar se aproximar do pai... O soco que o Vladimir dá na TV é muito bem feito...

- SPOILER: Pelo menos o final não é uma derrota completa - ele decide voltar pros "palcos", há um pseudo final feliz... A ideia do tecido no fundo da igreja se parecer com o cabelo do Bingo é interessante, mas não foi usada da melhor forma. Se o personagem tivesse se transformado num cara totalmente diferente, tivessem se passado muitos anos, e aquele pano azul no fundo fosse um comentário sobre o passado, daí seria melhor. Como ele continua se vestindo de palhaço, continua usando esse cabelo, essa sacada visual não tem tanta força. Mas isso é um detalhe insignificante que não tira em nada o mérito da direção, que foi excelente do começo ao fim.

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CONCLUSÃO: Um dos melhores filmes nacionais que já vi.

Bingo - O Rei das Manhãs / Brasil / 2017 / Daniel Rezende

FILMES PARECIDOS: Elis (2016) / Cidade de Deus (2002)

NOTA: 8.5

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Um Contratempo

NOTAS DA SESSÃO:

- Bem produzido, locações bonitas. Um pouco clichê essa ideia do cara inocente acusado de matar a esposa, e aos poucos o filme ir revelando os detalhes em flashbacks, etc. Mas pelo menos é algo que sempre prende a atenção.

- A cena do acidente é envolvente, cria suspense (lembra um pouco A Negociação com o Richard Gere). Ver personagens mentindo e se enfiando em complicações cada vez maiores é sempre uma narrativa envolvente. Mas há vários detalhes forçados. Por que o carro deles não está amassado? Não chegou a bater em nada? Mas se não bateu em nada, por que ele não dá mais partida? A atitude da amante (Laura) também é muito forçada. Eles começam a agir como criminosos, colocam o cadáver no porta-malas, roubam o celular e a carteira da vítima, etc. Eles não foram responsáveis pelo acidente! Foi só um cervo que atravessou a pista. Eles fazem tudo isso só pra ninguém descobrir que o cara estava no carro com a amante? A Laura não podia ir embora de táxi e deixar o Doria chamar a polícia e explicar o acidente sozinho?

- SPOILER: Forçado passar um cara especialista em consertar esse tipo de carro (numa estrada que não passa quase ninguém) e se oferecer pra guinchar o veículo, etc. Pior ainda é a coincidência de ser justamente o pai do garoto que morreu no acidente. E depois a Laura estar com o celular do garoto, e o celular tocar enquanto ela está na casa dos pais dele, etc. A intenção do filme de criar um suspense meio hitchcockiano é boa, mas o roteiro depende de muitas ideias forçadas pra funcionar.

- Forçado o pai da vítima sacar que a Laura estava mentindo que era dona do carro, por ter ajustado o banco do motorista, ou então reconhecer o isqueiro do Doria, etc. É como se eles tivessem matado o filho do Sherlock Holmes!

- O filme é uma série de flashbacks expositivos. Não está querendo levar o espectador numa narrativa prazerosa, criando cenas interessantes de se ver, revelando as surpresas de maneira compreensível, deixando o espectador digerir um dado de cada vez - está apenas querendo provar a própria engenhosidade, provar que o cineasta é mais esperto que a plateia. É uma espécie de racionalismo - o prazer do autor é criar um quebra-cabeça altamente complexo, ficar brincando com ideias e com as conexões entre essas ideias. Mas não está nem aí se os eventos fazem qualquer sentido, se seriam prováveis, se a narrativa é compreensível pro espectador, etc.

- Outro problema é que não sabemos se o que vimos ao longo do filme é real, ou se eram flashbacks falsos. O próprio protagonista parece estar mentindo. O filme exige que a gente faça um enorme esforço mental pra tentar entender a trama, conectar todos os pontos, ao mesmo tempo em que sugere que pode ser tudo em vão. A cada meia hora, temos uma nova versão da história que invalida o que sabíamos antes. Qual a motivação do espectador então pra prestar atenção nos detalhes? O filme desrespeita a plateia. O diretor sabe que nenhum espectador pode reter tantas informações, considerar tantas variáveis ao mesmo tempo, e conta com esse fato pra funcionar. Ele sabe que em algum momento o espectador irá desistir de verificar todas as informações, e vai apenas se render à "genialidade" do autor (como se esse fosse o propósito de se ver um filme).

- SPOILER: A situação no apartamento entre Doria e a advogada começa a ficar cada vez mais sem sentido (ela tentando convencer o cara a incriminar a amante, etc). Todo o final é ridículo (a advogada tirando a máscara, etc). Depois que o filme abandona a realidade, nada mais parece "engenhoso" ou "surpreendente".

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CONCLUSÃO: Suspense desonesto, irracional e desagradável de acompanhar.

Contratiempo / Espanha / 2016 / Oriol Paulo

FILMES PARECIDOS: A Garota no Trem (2016) / Garota Exemplar (2014) / A Negociação (2012) / A Origem (2010)

NOTA: 3.0