terça-feira, 21 de junho de 2011

Desintegração / Anti-Estrutura

Estou pegando emprestado um conceito do escritor e filósofo Leonard Peikoff e aplicando ao cinema por conta própria.

"Integração" é o processo pelo qual as pessoas relacionam dados concretos pra formar um "todo" coerente - fatos isolados, valores, leis, acontecimentos num livro, as disposições da Constituição, etc.

Um tipo de processo mental trabalha pra integrar dados através de um processo racional ("integration" ou "I" - integração). Outro, procura integrar dados através de processos não-racionais ("misintegration" ou "M" - "má integração"). Um terceiro, rejeita integração de qualquer tipo ("disintegration" ou "D" - desintegração).

Um exemplo de "I" é ciência
Um exemplo de "M" é religião.
Um exemplo de "D" é arte não-objetiva

Filmes baseados num método de Integração funcionam mais ou menos como uma equação matemática: os números e símbolos (ou seja, os elementos que compõem o tema do filme) vão sendo apresentados pra gente um de cada vez, nós vamos interpretando o significado de cada um deles, associando-os aos outros que vimos anteriormente, armazenando tudo numa estrutura coerente, até que no final chegamos a um significado - um significado que depende da relação desses elementos, e que perderia o sentido caso um "x" fosse substituído por um "y" aleatoriamente (não estou excluindo a experiência sensorial que o cinema também proporciona - ao contrário de um livro, por exemplo - apenas sugerindo que um filme não deve se reduzir a isto). 

Mas o que eu quero falar aqui é sobre o "D".

"Desintegração" (filmes "Anti-Estrutura", como diz Robert McKee) no cinema aparece naqueles filmes de "arte" que contestam a norma, onde as pessoas saem do cinema cada uma com uma versão completamente diferente do que foi que aconteceu, sem poder provar qual foi o propósito do filme ou mesmo se houve algum. São filmes que rejeitam a razão e as características essenciais da mente - negam que a comunicação seja possível, que existem técnicas melhores ou piores pra se transmitir uma ideia, que a arte tenha o propósito de comunicar algo, e defendem uma visão completamente subjetiva e arbitrária da arte, como um cozinheiro que se nega a adaptar suas criações à "ditadura" do paladar humano, querendo ser livre pra usar veneno de rato como ingrediente se ele estiver a fim. 

Quase sempre são filmes sem trama, onde os personagens centrais não têm objetivos claros. São comuns cenas longas onde nada acontece, a câmera não se move, os enquadramentos são esquisitos, muitas vezes coisas acontecem fora de quadro, como se houvesse um desinteresse crônico por parte da câmera. Não há senso de ritmo, os diálogos são incompletos, raramente há um clímax, e o filme termina em um momento inesperado, sem nenhum senso de conclusão, deixando a platéia intrigada, tentando entender a mente "profunda" e misteriosa por trás daquilo (o foco desses filmes geralmente é a figura do autor e não o trabalho em si).

Algumas vezes não há nem como saber se o que foi incluído no trabalho foi cuidadosamente planejado ou se o autor na verdade é insano. Nas artes plásticas isso é bem mais comum do que no cinema, chegando a ser uma convenção hoje em dia (afinal um filme custa muito caro, envolve dezenas de profissionais, o que acaba servindo de filtro contra experimentos desse tipo).

Muita gente acaba sendo respeitosa em relação a esse tipo de trabalho por puro complexo de inferioridade - por medo de não ter sido capaz de compreender a mensagem do artista. O resultado pode ser visto neste experimento, onde pessoas numa galeria de arte analisam um quadro abstrato, sem saber que na verdade ele foi pintado por crianças de 2 anos:

http://www.youtube.com/watch?v=Pj4MVtoNWZc&feature=youtu.be 

Isso é um bom exemplo do que acontece quando se tira a objetividade da arte.

Desintegração total nunca é muito popular (o público em geral prefere histórias e mensagens palpáveis - são mais os intelectuais e que se interessam por esse tipo de coisa), mas hoje em dia é considerado uma espécie de "requinte" ter uma dose de desintegração num filme.

Mas é importante saber diferenciar casos de desintegração daqueles casos de integração menos ortodoxos, mais complexos - ou seja, casos onde você possa simplesmente não ter entendido o tema do filme de primeira, mas que ele exista, seja válido, e possa ser apontado no próprio trabalho. E é preciso diferenciar desintegração de Naturalismo, que é uma outra questão - o naturalismo na verdade tem elementos de desintegração, mas num grau menos intenso (esses filmes ainda costumam apresentar uma história com um tema central, etc). 

7 comentários:

renatocinema disse...

Adorei sua filosofia......Amei.

Sou fã de filmes de "arte". Esse conceito de filmes fáceis me cansam.

Talvez, por concordar com a visão D, tenha feito eu ser fã de A Origem, 2001, Cidade dos Sonhos........


Parabéns, mesmo, pelo texto.

Sites de cinema além de cultura, arte e emoção, agora são filosofias.

O Matuto disse...

Não vejo muito propósito em uma conceituação dessas. Alias, geralmente tentativas de filosofias,epistemologias, tornam filmes interessantes em redes de conceituações que se esgotam em si mesmo. Um exemplo clássico é o Aldrich, quando questionado filosoficamente sobre o filme "O que terá acontecido a Baby Jane?", respondeu ao reporter: "Esse filme que voce ta falando é o meu mesmo, por que eu não fiz isso...".

Começamos a ver coisas onde talvez elas nem existam. Eu não sei por que, mas Onde Os Fracos... é um filme tão simples, mas tão simples, sem psicologismos, apenas mostrando que é possível fazer um filme que começa do meio e termina no próprio meio. Subvertendo uma linguagem linear. Acho tão simples, será que estou sendo superficial?

Bem, a discussão pode ser boa, dava varios e vários posts...

Caio Amaral disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lcattapreta disse...

"má-integração" rsrs

Caio Amaral disse...

Rs.. Tem outra tradução pra "misintegration"?

Matheus Dix disse...

Só de se tratar de um filme, já quer dizer que há uma mensagem. Afinal, nele existem os elementos básicos para uma comunicação, de acordo com a semiótica.

Emissor > Mensagem > Receptor

no caso:

Diretor > Narrativa > Espectador

Por mais que o filme possa parecer o mais "viajado" possível, sempre há alguma mensagem por trás dele. Mesmo que a mensagem seja a de não passar mensagem alguma (como o caso da Desintegração). Confuso, não? Me senti numa mistura de Escher e Magritte agora.

Acredito que nessa cena citada, onde o objeto que deveria ser o foco, está posicionado fora do enquadramento seja uma forma subjetiva do autor de expressar a sua mensagem (seja ela qual for).

Caio Amaral disse...
Este comentário foi removido pelo autor.