sábado, 6 de setembro de 2014

Mentalidade Clichê

"É melhor falhar na originalidade do que ser bem sucedido na imitação." - Herman Melville

Às vezes um filme não tem nenhum defeito óbvio em termos de narrativa, produção, conteúdo, mas por falta de autenticidade acaba perdendo muito de seu impacto. Pra mim, isso acontece sempre que percebo que o filme está funcionando sob o que chamo de uma "mentalidade clichê" - quando tudo o que surge na tela parece uma imitação; algo baseado em fórmulas, convenções, desde elementos grandes como o tema do filme, os valores da história, até detalhes mais específicos e técnicos, como o estilo de edição ou o tratamento da imagem. É uma atitude que acaba transmitindo falta de originalidade, de independência, de auto-confiança, além de tornar tudo muito previsível e entediante pro espectador.

Claro, é tudo uma questão de dosagem. Você não precisa ser 100% inovador em tudo pra ser autêntico e interessante (exemplo absurdo aleatório: fazer um filme num formato redondo, em vez de retangular, só pra não ser convencional). Um formato diferente poderia até ser justificável em algum caso, mas em geral apenas chamaria atenção pro estilo e distrairia o público do conteúdo do filme. Certas convenções são apropriadas, têm uma razão de existir e, a não ser que você tenha um motivo especial, não há por que querer quebrá-las.

Familiaridade pode ser algo muito bom e útil também. Pode facilitar a comunicação com o espectador e deixar a plateia à vontade pra embarcar na sua história, criando um ambiente conhecido, não ameaçador, se essa for a sua intenção (nem todo cineasta quer ser subversivo, e não há nada de errado com isso).

Mas há uma grande diferença entre usar convenções ao seu favor, de maneira consciente (pra facilitar a comunicação ou criar familiaridade), e usá-las em todos os aspectos do filme como um princípio absoluto. Eu, por exemplo, adoro filmes de gênero, e se fosse cineasta adoraria fazer um terror slasher, ou um suspense estilo Hitchcock. Pra criar essa atmosfera, certamente eu usaria várias convenções (como o estilo de fotografia ou trilha sonora). Há muita diversão nisso. Mas, se você tem um mínimo de autoestima como artista (e interesse em encantar a plateia), você vai querer deixar a sua marca e expressar a sua individualidade ali, trazendo ideias originais, elementos diferentes, etc.

Quando um artista é honesto e independente, seu trabalho automaticamente expressa autenticidade, mesmo quando ele tem um gosto popular, comercial - pois seria muito raro a verdade de um artista bater exatamente com todas as convenções do momento. Se você for você mesmo, uma coisa ou outra vai acabar saindo da norma, e isso soará autêntico. É necessário um esforço consciente pra estar em sintonia com todos os modismos, e é preciso abrir mão de sua personalidade e do seu senso crítico também.

Como disse, nem todas as convenções são irracionais e inúteis, por isso, devemos ficar desconfiados também daqueles cineastas que tentam inovar absolutamente em tudo, pois eles estão se mostrando igualmente dependentes - eles não estão tomando decisões baseados no que acham bom ou ruim, no que funciona ou não funciona, mas pegando o convencional como base e fazendo exatamente o oposto pra mostrar que são rebeldes.

Diante das milhares de decisões importantes que ele deve tomar durante uma produção, o diretor com uma mentalidade independente se pergunta: "Qual a melhor forma de gravar essa cena?", "Que técnica terá um resultado mais eficiente?", "O que servirá melhor ao propósito dessa história?". Ele é como um cientista, consultando a realidade e seus gostos pessoais pra resolver cada problema. Alguém com uma "mentalidade clichê" se pergunta: "Como isso é feito por outros diretores?", "Como isso é feito na atualidade?", "Como essa cena pode se parecer com a cena X do filme Y?". Ele não tem princípios firmes, noções independentes de certo ou errado, bonito ou feio - ele consulta as tendências e os outros cineastas pra tomar suas decisões.

Geralmente são filmes de estúdio que adotam essa mentalidade, pois muitos têm interesses puramente comerciais e não querem assumir grandes riscos, então repetem fórmulas de sucesso. Mas existem filmes alternativos, sem grandes interesses comerciais, que são igualmente feitos de clichês - só escolheram um segmento menor da cultura pra copiar. Ou seja, um diretor pode estar fazendo um grande blockbuster comercial e estar sendo autêntico, enquanto outro pode estar fazendo um filme cult mas sendo um clichê. Cada caso é um caso. De qualquer forma, o resultado acaba soando artificial, sem vida, pouco convincente.

Há uma magia - um magnetismo natural - quando alguém está sendo íntegro, expressando a sua verdade; quando por trás de um filme, você sente a presença de uma mente ativa, e percebe que as decisões estão sendo tomadas por um "DNA criativo" único. Isso é algo muito difícil de forjar, pois está presente em cada detalhe e se revela em cada aspecto do filme, assim como o caráter de uma pessoa se revela em cada aspecto dela. Muitas vezes nos primeiros segundos de um filme já é possível perceber se ele vai ser autêntico, ou se vai apenas seguir tendências. Alguém que está apenas imitando nunca consegue projetar a mesma paixão do que alguém que está sendo fiel aos seus princípios, e isso fica evidente no trabalho.

Claro, não é por um filme ser autêntico que ele vai ser bom necessariamente ou que você vai gostar dele. O artista pode não ter talento, ou ele pode estar expressando valores diferentes dos seus. Mas às vezes acho preferível ver um filme com valores diferentes dos meus, mas que seja autêntico, do que um filme totalmente clichê que supostamente defende os meus valores ("supostamente" pois fica sempre uma desconfiança). Autenticidade parece ser uma qualidade básica, sem a qual todas as outras perdem a força.

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