quarta-feira, 26 de julho de 2017

Emoções Irracionais

Na postagem Os 4 Pilares do Entretenimento, eu disse que Objetividade é uma das qualidades fundamentais dos bons filmes, e que em geral os filmes comerciais respeitam esse princípio, que é mais desafiado por filmes alternativos, abstratos, pós-modernistas, etc.

Mas existem formas em que até os filmes comerciais podem trair esse princípio - não por um desejo consciente de tornar a experiência subjetiva, e sim por uma falta de habilidade dos próprios criadores.

Vou especificar aqui uma maneira particular em que os filmes podem trair esse princípio da Objetividade:

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Os filmes podem tentar nos provocar emoções / reações / impressões de forma racional ou irracional no espectador.

Uma "emoção racional" é quando o filme apresenta fatos, eventos, e espera que o espectador reaja / se emocione com base nesses fatos, após assimilar aquilo que viu, e julgar de acordo com seus valores.

Uma "emoção irracional" é quando o filme tenta provocar emoções de maneira direta, "analógica", apelando para os instintos primários do espectador - por exemplo, usando música, fazendo o atores emularem certas emoções na tela e esperando que a mesma emoção surja no espectador por "osmose", driblando a mente e apelando diretamente para o lado mais emotivo da plateia.

Não estou sugerindo aqui que esses recursos (trilha sonora, interpretação) sejam maus - apenas que eles não devem tentar substituir os fatos e o conteúdo da história. Nos bons filmes, as 2 coisas acontecem em conjunto: a história te conduz a uma certa emoção, e daí o cineasta utiliza todos os "truques" cinematográficos junto com os atores pra tornar aquela emoção mais vívida, intensa, real.

Os bons cineastas pressupõem sempre que o espectador seja racional e não esteja sujeito a manipulações baratas. Infelizmente, a verdade é que a maior parte da plateia está sim sujeita a essas manipulações, e responde prontamente a impressões superficiais, aparências, sensações, reações, como se fossem equivalentes a fatos.

Por causa dessa deficiência, alguns filmes e cineastas conseguem se tornar extremamente populares, apenas por saberem apertar esses "botões" e apelarem para o lado irracional dos espectadores (assim como um político pode chegar à presidência de um país sem ter nada de coerente para dizer, sem explicar claramente seus planos, apenas conseguindo criar certas emoções em seus discursos, sendo um bom comunicador, desenvolvendo seu carisma e sua imagem pessoal, passando um "ar" de poder e respeitabilidade que não estão fundados na realidade).

Pra ilustrar o que seriam emoções racionais, vamos pegar como exemplo o filme E.T. - O Extraterrestre (1982). Certamente a performance de Henry Thomas, os efeitos especiais, a música de John Williams contribuem muito para o impacto emocional do filme. Mas se o espectador se emociona no final, na sequência de despedida, por exemplo, não é apenas porque os personagens estão chorando em sua frente e a orquestra está tocando uma música bonita - e sim porque os eventos da história o prepararam para aquele estado (talvez para o espectador puramente emocional, bastassem as lágrimas, as reações e a música fora de contexto, mas um bom filme sempre tentará atingir o espectador consciente).

Por que a plateia está correta em ficar triste com o fato de E.T. ir embora? Porque o filme estabeleceu, cena após cena, ao longo do filme inteiro, que E.T. é um valor importante para o protagonista. Nós primeiro vimos como era a vida de Elliott antes da chegada de E.T. (uma criança que ninguém levava a sério, levando uma vida comum, tentando fazer parte da turma sem sucesso, sendo perturbado pelos colegas da escola, pelo irmão mais velho, etc), e depois vimos como E.T. transformou tudo isso para melhor. Como ele fez de Elliott um garoto mais forte, responsável, respeitado, tornou sua vida mais excitante, grandiosa, etc. E tão importante (ou mais) que E.T. ser um valor para Elliott, é o fato de E.T. ser um valor pra plateia - pelo personagem ter tornado a experiência do espectador mais agradável. Ao longo do filme, E.T. foi o causador de uma série de emoções prazerosas na plateia. O espectador riu com seu jeito atrapalhado, se encantou com seus poderes mágicos, etc. Então quando E.T. vai embora, a plateia não se comove apenas por consideração a Elliott, mas também por interesse próprio, porque o espectador também sentirá falta do personagem e das emoções positivas associadas a ele:

https://www.youtube.com/watch?v=gTVoFCP1BLg

Ou seja, o espectador tem razões palpáveis pra se emocionar no final. De maneira simplificada, podemos colocar dessa forma: o espectador fica feliz quando um personagem que foi estabelecido como uma boa pessoa conquista algo que foi estabelecido como desejável e de primeira importância pra ele (especialmente quando isso também é essencial pra felicidade / prazer do espectador na história). E o espectador fica triste quando um personagem que foi estabelecido como uma boa pessoa perde algo que foi estabelecido como desejável e de primeira importância pra ele (especialmente quando isso também era essencial pra felicidade / prazer do espectador na história).

Não adianta mostrar uma mãe perdendo um filho, filmar uma cena trágica de guerra, e achar que isso automaticamente comoverá o espectador por serem coisas "intrinsecamente" tristes. Isso não irá convencer o espectador consciente, que tem controle sobre suas emoções. Mas se a abordagem do cineasta é correta, ele poderá comover o espectador até com a "morte" de objetos inanimados, como por exemplo a bola de vôlei do filme Náufrago (2000).

https://www.youtube.com/watch?v=LHtgKIFoQfE

Estou focando aqui na emoção de tristeza, mas isso vale pra todas as emoções e reações que um filme pode causar: um senso de vitória, a surpresa de uma reviravolta na trama, um sentimento romântico, etc. Há sempre a maneira racional de provocar essas emoções, e a maneira falsa, desonesta, que apela pra impressões, aparências, clichês, etc.

Imagine por exemplo um filme de esporte onde os heróis precisam vencer a disputa final. Pro espectador ficar feliz com a vitória, algumas coisas teriam que ser estabelecidas antes. Primeiro, os protagonistas têm que ser pessoas boas pelas quais vale a pena torcer. Depois temos que ter uma noção da importância da vitória pra eles. O que aquilo significará, que mudança irá trazer... E temos que saber do lado negativo também. O que de ruim pode acontecer caso eles não conquistem esse objetivo, e também por que os adversários não merecem a vitória. O espectador tem que ter também um "gostinho" das emoções negativas de desilusão, derrota, vergonha ao longo da história, pra que daí sim, quando ocorrer a vitória, ele tenha uma base pra ficar feliz. Essa seria a forma de criar uma emoção racional.

Ainda assim, através do poder do cinema, é possível provocar arrepios e reações superficiais no espectador simplesmente através da técnica, da manipulação, do uso da música, de memórias afetivas, etc. E muitas vezes, mesmo o espectador racional pode se ver "caindo" nessa manipulação... se arrepiando contra sua vontade, com um misto de prazer e ressentimento... mas serão sempre emoções descartáveis se sua mente não estiver igualmente comprometida com a história.

Alguns dos mestres das emoções irracionais atualmente são cineastas como Christopher Nolan e M. Night Shyamalan, provavelmente por serem ótimos diretores mas não tão brilhantes como roteiristas.

Peguem por exemplo a cena do filme Interestelar (2014) onde o personagem do Matthew McConaughey, que está há anos numa missão espacial, abre mensagens de vídeo de seus filhos na Terra e começa a chorar:

https://www.youtube.com/watch?v=MoLkabPK3YU

Se nos emocionamos com essa cena, não podemos dizer que é pelo apego que tínhamos em relação aos personagens dos filhos, pela importância que o protagonista atribui à paternidade, etc. A emoção vem fora de contexto, simplesmente por causa da performance do ator, da música, da edição, e por causa da vaga noção de que é triste estar separado de seus filhos. Nada que tenha de fato sido estabelecido como um valor dentro do contexto da história. Se Interestelar fosse um livro e lêssemos essa cena no papel, ela dificilmente teria um grande impacto emocional, pois estaríamos apenas lidando com os fatos da história, sem o poder do cinema de forjar certas sensações.

Em muitos de seus filmes, Nolan usa métodos parecidos pra provocar a impressão de profundidade e inteligência. Em vez de apresentar uma série de fatos e eventos palpáveis, e esperar que a plateia enxergue sozinha a inteligência naquelas associações, e com isso ficar inspirada, Nolan apela para o irracional: confunde o espectador com tramas obscuras, impedindo que ele tenha uma medida exata daquilo que está sendo afirmado, toca em temas técnicos e confusos como viagem no tempo, física quântica, o funcionamento do cérebro, etc, deixando o espectador "desarmado", sem o poder de julgar os fatos com clareza, e em cima disso, usa sua habilidade de causar emoções pra criar a impressão de um acontecimento profundo, genial, com atores fazendo expressões de espanto, uma música épica tocando, etc.

Shyamalan é outro que apenas ocasionalmente consegue provocar emoções de maneira racional. SPOILER: Em seu último filme Fragmentado (2016), há um momento no final onde aparece o personagem do Bruce Willis, que conecta o filme com o universo de Corpo Fechado (2000):

https://www.youtube.com/watch?v=T4drX5Xzo5o

A revelação só parece impactante por causa da maneira como a cena é dirigida: a música edificante, a câmera se aproximando lentamente, a aparição inesperada de Bruce Willis, etc. Mas é uma reviravolta que não tem qualquer consequência pra história que acabamos de assistir, pros destinos dos personagens que estávamos acompanhando, e a conexão com o filme Corpo Fechado não parece especialmente lógica ou engenhosa a ponto de ficarmos admirados pelo roteiro. O filme simula muito bem a emoção de uma surpresa arrebatadora, mas não consegue suportar essa emoção com verdades. Algo bem diferente do final de O Sexto Sentido (1999), onde de fato tínhamos razões para ficarmos espantados.

Ou seja, estou apenas diferenciando o método que diferentes cineastas usam pra provocar impressões na plateia, e não o conteúdo dessas impressões. Um filme pode utilizar do método certo, e ainda assim desagradar o "espectador racional", caso ele esteja projetando valores que vão contra os seus.

No filme recente Okja (2016), eu critiquei a tentativa do filme de criar empatia pelo animal mostrando que ele arriscaria sua vida pela protagonista, pelo fato dele ser altruísta, além da ênfase dada pra características desagradáveis do bicho, etc. Minha crítica aqui não é em relação ao método (racional ou irracional) do filme. O método está certo: o filme tenta criar uma emoção de afeto mostrando a relação entre o animal e a garotinha, demonstrando as qualidades do bicho através de ações, etc. Minha objeção aqui foi em relação ao conteúdo, pois não achei que as qualidades demonstradas pela criatura fossem de fato atraentes.

domingo, 23 de julho de 2017

Em Ritmo de Fuga

NOTAS DA SESSÃO:

- Horrível esse começo com o Ansel Elgort dançando no carro enquanto os amigos cometem o assalto (isso nem combina com o personagem, que é tão introvertido que mal abre a boca). O que há de engraçado no fato deles serem criminosos? Não há nenhum contexto que justifique esse humor por enquanto - exceto a noção de que, no cinema, bandidos são automaticamente "cool" por algum motivo.

- A perseguição de carro em seguida é muito bem feita. Ao longo do filme o diretor demonstra bastante estilo, domínio técnico - capricho na edição, nos movimentos de câmera, na integração entre música e imagem, etc. A direção parece o grande destaque do filme.

- Todo o cinismo tira um pouco da minha boa vontade (compromete o pilar da Benevolência). Primeiro o fato do filme glamourizar bandidos. Depois tem o lance da trilha sonora - o uso de músicas antigas alegres em tom sarcástico (como fazem em Guardiões da Galáxia, Perdido em Marte, etc).

- O romance do Baby com a garçonete (Lily James) é bem superficial, não chega a criar um novo interesse dramático. Os personagens não são muito bem desenvolvidos.

- Falta certo conflito na história. Baby está meio que sendo "forçado" a participar dos assaltos, mas ele não parece resistir à situação de nenhuma forma. Não parece ter um grande conflito moral (está até fazendo dinheiro com isso), ou um plano pra se vingar do Kevin Spacey, etc. Ele não tem um objetivo muito forte, apenas obedece o grupo. A história não é motivada por ele. As coisas que acontecem ao longo do filme (toda a trama dos assaltos) não são interessantes pra plateia, pois são apenas um serviço que o protagonista faz de forma apática, não por um desejo pessoal.

- Pelo menos mais pro final do filme ele começa a planejar escapar, o que cria um conflito mais interessante entre ele e os outros do grupo.

- SPOILER: Mas a maneira como ele é "desmascarado" é muito forçada (a história dele estar usando o gravador; depois associarem magicamente que a Debora da fita é a mesma Debora da lanchonete, etc).

- SPOILER: Forçado também o Jon Hamm ser baleado na lanchonete, não morrer, ainda conseguir alcançar o Baby, depois escapar do carro quando cai do prédio... E ele nem era o vilão do filme. Nem havia uma rivalidade pessoal entre ele e o Baby que dê intensidade e sentido pra esse confronto épico no fim (o Jamie Foxx e o Kevin Spacey eram muito mais inimigos do que ele).

- SPOILER: Baby rouba uma série de carros, assassina o Jamie Foxx, destrói um monte de propriedade... E ainda é pra acharmos que ele é um cara inocente que apenas se meteu numa confusão sem querer. Que bom que pelo menos ele vai preso no fim pra dar uma equilibrada na ética do filme.

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CONCLUSÃO: Filme ágil, bem editado, filmado, etc, mas que está mais preocupado em parecer "cool" do que em provocar emoções verdadeiras ou contar uma história interessante.

Baby Driver / Reino Unido, EUA / 2017 / Edgar Wright

FILMES PARECIDOS: Dois Cara Legais (2016) / Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010) / Beijos e Tiros (2005) / Pulp Fiction: Tempo de Violência (1994)

NOTA: 6.0

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Carros 3

NOTAS DA SESSÃO:

- As cenas de corrida no início não empolgam. O filme não consegue mostrar as qualidades que tornam McQueen o melhor corredor. Ele apenas faz "cara de força" e ultrapassa os outros carros facilmente. Em termos de ação as cenas também são chatas (até por esse ser um esporte meio monótono e previsível, tirando os acidentes).

- O filme insiste nessa ideia tradicionalista de que as técnicas do passado eram melhores, mas não explica por que, nem qual o problema com as técnicas atuais.

- Toda a história de superação do McQueen não funciona direito. Ele não tem uma motivação pessoal interessante, um desejo de realizar algo admirável que a plateia ainda não tenha visto (o personagem é desinteressante, comum, assim como os coadjuvantes). Quer apenas vencer por vencer, pra derrotar o adversário que é metido e agora passou na frente dele. É uma meta subjetiva, baseada numa rivalidade tola, sem carga emocional. E já vimos ele vencendo diversas vezes no começo do filme. Vê-lo fazendo cara de força mais uma vez no final e vencendo mais um adversário não é uma boa motivação pra plateia.

- O filme quer passar a ideia de que, pra vencer, você precisa praticar, treinar, se exercitar, buscar técnicas diferentes das do adversário. Mas não mostra nada que pareça minimamente plausível ou inteligente a partir disso. O espectador não absorve nenhum conceito ou informação que pareça ter qualquer utilidade na vida real. A única "sacada" é a velha ideia de que as técnicas tradicionais são as melhores. Que treinar com equipamentos high-tech não adianta: é preciso se sujar, correr na areia, na lama, na terra, ser "old school". Além disso não ser nenhuma novidade pro McQueen (ele já corria na terra na parte 2), é uma ideia sem sentido. Se ele quer ser o melhor em uma pista de asfalto, ainda mais num esporte tão tecnológico onde tudo é tão milimétrico e cada detalhe é tão decisivo, por que faz sentido ele correr em todo tipo de lugar exceto em pistas como as que acontecem a corrida? Não há muita inteligência na história.

- Meio falso a Cruz Ramirez ser a melhor treinadora do mundo sendo tão jovem e sem nunca ter competido 1 única vez na vida. Pelo menos é um drama mais forte que o do McQueen - dá pra torcer pra que ela explore mais o seu potencial, deixe de ser reprimida, etc.

- Filmes da Pixar mesmo quando são fracos costumam ser ter muitas ideias criativas na composição do universo dos personagens (por exemplo, como funciona o cérebro em Divertida Mente, etc). Esse aqui é bem baixo em criatividade, e o humor também é fraco.

- Frustrante a treinadora ganhar do McQueen nos exercícios. Quer dizer que mesmo com as melhores técnicas do mundo, McQueen não conseguirá se superar?

- SPOILER: Revoltante o McQueen se sacrificar no final e deixar a treinadora competir no lugar dele. Finalmente entendemos porque a história estava tão chata, pouco convincente: é que a intenção do filme nada tinha a ver com mensagens inspiradoras, com o desejo de estimular a autoestima das crianças, etc. No fundo é apenas mais uma animação infantil promovendo coletivismo, altruísmo, que estava apenas disfarçada de história motivacional. Por isso pouco importava o que McQueen fazia nos treinos, se eram coisas plausíveis ou não, pouco importava fazer o espectador torcer por ele. Toda essa pseudo-trama seria jogada fora no fim pra celebrar a Cruz Ramirez. No fim, o grande herói americano cede espaço para a mulher latina (Disney e suas agendas políticas "sutis")! É um insulto à inteligência da plateia dizer que uma novata que NUNCA competiu na vida entraria pela primeira vez numa corrida de verdade e venceria o adversário que nem o melhor do mundo conseguia superar.

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CONCLUSÃO: Uma das produções mais esquecíveis e desnecessárias da Disney / Pixar.

Cars 3 / EUA / 2017 / Brian Fee

FILMES PARECIDOS: O Bom Dinossauro (2015) / Detona Ralph (2012) / Turbo (2013)

NOTA: 4.0

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A Coisa Mais Simples do Mundo

Pessoal, o curta-metragem que fiz ano passado já está disponível no YouTube. A história foi adaptada do conto The Simplest Thing In the World da Ayn Rand, que aparece no livro The Romantic Manifesto. Se curtirem, ajudem a divulgar - e quem tiver conta no IMDb passa lá depois, agora quem define a NOTA são vocês ;)

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt6352292/


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Fala Comigo

Longa de estreia do brasileiro Felipe Sholl sobre um garoto de 17 anos que se envolve com uma das pacientes de sua mãe (psicóloga) que tem mais do dobro de sua idade. O filme tem algumas boas performances e um enredo simples mas que se mantém estimulante do começo ao fim. Meu maior problema com a história (além de algumas manobras improváveis da trama) foi aceitar e torcer pelo romance entre os dois, que acaba de fato parecendo desequilibrado, imaturo, e me deixou torcendo mais pela mãe do garoto (Denise Fraga), que tenta impedir a relação, do que pelos desejos do casal. Desde o começo fica claro que o garoto apenas tem uma tara por mulheres mais velhas - ele não se apaixona especificamente pela personagem da Karine Teles por suas qualidades pessoais, por uma compatibilidade especial entre os dois que seja compreensível pra plateia. Fica difícil entender o que um garoto como ele veria numa mulher como ela. Em filmes sobre relações improváveis como essa, como A Primeira Noite de um Homem ou O Medo Consome a Alma, o parceiro tem sempre uma "virtude compensatória" que acaba ofuscando as diferenças, o que não vemos direito aqui. Ela, por outro lado, já se mostra uma mulher dependente, psicologicamente instável, que mergulha nessa nova relação de forma irresponsável simplesmente pra fugir da depressão e esquecer o ex-marido. Ou seja, se a intenção do filme era a de quebrar tabus, mostrar que toda forma de amor é bonita e válida, ele acaba não funcionando muito bem (pelo contrário, alguns detalhes sexuais acabam até beirando o repulsivo). Ainda assim é um filme que, com um mínimo de recursos, consegue tirar algumas boas reações da plateia.

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Fala Comigo / Brasil / 2017 / Felipe Sholl

FILMES PARECIDOS: Que Horas Ela Volta (2015) / Casa Grande (2014)

NOTA: 5.5 

sábado, 8 de julho de 2017

Homem-Aranha: De Volta ao Lar

NOTAS DA SESSÃO:

- Interessante a introdução - mostrar os trabalhadores que limparam os destroços em Nova York depois da batalha dos Vingadores, etc. Dá um toque realista que torna todo o universo Marvel mais convincente.

- Tom Holland convence no papel, é simpático, mas o personagem em si não é dos mais empolgantes (há alguns sinais do Herói Envergonhado). O maior esforço aqui está em mostrar como ele é comum, desastrado, um garoto como qualquer outro da plateia, e não alguém excepcional.

- Outro sinal de que o filme está querendo agradar os politicamente corretos são esses personagens coadjuvantes (como Ned) que parecem ter sido escalados só pra dar um ar "multicultural" pra produção - e não porque eles são particularmente carismáticos e convencem no papel.

- Referência a Curtindo a Vida Adoidado: se a ideia era que Peter Parker lembrasse Ferris Bueller, os produtores realmente não devem ter assistido ao clássico.

- Michael Keaton é sempre bom ator, mas o vilão em si é fraco. Por que ele vira do mal se era um cara normal no começo? Excesso de poder? Qual sua motivação? Não sabemos que perigo o Homem-Aranha corre. Parece um vilão de segunda-linha, e não uma grande ameaça pra cidade. E também não fica claro o que Peter Parker irá ganhar se derrotá-lo. Se irá de fato ser "promovido" a Vingador pelo Stark ou não, etc.

- O romance também é um tédio. A relação entre os dois não tem nenhum drama, não faz o espectador torcer, não acreditamos que Peter está de fato apaixonado por ela. Tudo que acontece no filme parece mecânico: Peter lutar contra criminosos, se apaixonar... Nada parece vir de dentro dele, de suas convicções, emoções, desejos...

- O traje do Homem-Aranha desenvolvido pelo Stark é ótimo. Divertido ele tentando usar a roupa no "modo avançado" e se confundindo com os novos comandos.

- Desnecessária e sem propósito toda essa sequência em que ele fica preso dentro do galpão. E a cena depois no obelisco é bem tensa e vertiginosa, porém é motivada por um acidente banal, desnecessário (não foi um evento provocado pelo vilão, algo necessário pra trama, etc).

- Fraca a cena de ação na balsa de Staten Island. Dá a impressão que quando o Homem-Aranha tenta ajudar, muito mais desgraça acaba acontecendo. Se o vilão fosse deixado em paz, ele simplesmente estaria traficando algumas armas. Mas quando entra o Homem-Aranha em ação, a cidade começa a ser destruída, a população entra em risco, etc. Sem falar que a ideia da balsa ser partida ao meio e depois remendada sem afundar beira o ridículo.

- Peter ser despedido do "estágio" pelo Stark é legal... Cria uma nova motivação, agora ele precisa se provar e tem a desvantagem de não ter mais o traje.

- SPOILER: Não faz o menor sentido o vilão ser justamente o pai da garota que ele está a fim. É uma coincidência totalmente aleatória que demonstra displicência dos roteiristas (a intenção de integrar o vilão com a vida pessoal de Peter é positiva, mas foi tudo muito mal feito). A maneira como o Michael Keaton descobre que Peter é o Homem-Aranha (na cena do carro) também é bem forçada.

- Que chatice Peter estar sempre decepcionando a menina que ele gosta, largar ela no baile sozinha, etc. Nem faz sentido ele descobrir algo no meio do baile e ter que sair, e daí ser atacado pelo Shocker.. Como o Shocker sabia o que ele iria fazer, etc?

- Não convence também que agora sem o traje, Peter iria conseguir vencer essas pessoas todas que nem antes ele conseguia derrotar. Que chances ele teria contra o Michael Keaton sem o traje? Por que ele vai ao encontro dele naquele galpão então? Óbvio que iria dar errado (como dá). É meio tolo também aquela roupa do Vulture (com tecnologia alienígena) não ter poder pra derrotar o Homem-Aranha, e ser mais prático derrubar o teto do galpão na cabeça dele (!).

- Confusa visualmente (e forçada) toda a sequência de ação no avião. Mais uma vez o Homem-Aranha provoca um desastre muito maior do que seria necessário pra combater o tráfico das armas. Sem ele o avião não teria caído.

- SPOILER: No fim o Michael Keaton não é pego por mérito do Homem-Aranha, e sim porque o traje dele dá um defeito inesperado.

- Parece que matar o vilão hoje em dia é muito cruel, então o Homem-Aranha tem que mostrar compaixão, tentar salvar sua vida, etc.

- SPOILER: O final é uma chatice. Não só o "romance" termina num tom desagradável, a menina sem entender porque Peter a tratou mal o filme inteiro... Como depois ele é promovido a Vingador pelo Stark, recebe tudo o que sonhava, mas daí rejeita o convite!!!!!! É patético. O filme quer mostrar que o herói é "maduro" por abrir mão do sucesso, por sacrificar sua glória em nome de "metas pessoais" mais nobres que nem entendemos direito quais são.

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CONCLUSÃO: "Padrãozinho" da Marvel prejudicado por alguns descuidos de roteiro e algumas das tendências ruins da atualidade.

Spider-Man: Homecoming / EUA / 2017 / Jon Watts

FILMES PARECIDOS: Capitão América: Guerra Civil (2016) / Homem-Formiga (2015)




NOTA: 5.5 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Os 4 Pilares do Entretenimento

Na minha filosofia de entretenimento, os grandes filmes (e isso vale pra qualquer arte) são aqueles que melhor satisfazem esses 4 desejos:

1. O desejo por Objetividade
2. O desejo por Autoestima
3. O desejo por Benevolência
4. O desejo por Diversão

Vou expandir um pouco cada um desses termos pra gente compreendê-los melhor.

(Para mais ilustrações e exemplos relacionados a esse tópico, recomendo que vejam também minhas postagens: O Que Nos Atrai à Arte?, Senso de VidaVirtudes e Tipos de Filmes e O Que o Cinema Pode Aprender com o Futebol)

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1. OBJETIVIDADE

É o desejo de entender o mundo, de ver ordem no universo, de ter confiança em nossas capacidades cognitivas, de saber da verdade por trás das coisas. Uma obra de arte pode satisfazer esse desejo através de seu conteúdo, mostrando uma trama inteligente, por exemplo, mas principalmente através de seu estilo, na maneira como o artista comunica suas ideias, demonstra seu talento, apresenta conceitos em sua obra, nas técnicas que ele usa pra expressar valores e criar emoções, na maneira como ele retrata a realidade, o ser humano, tornando claro e compreensível aquilo que muitas vezes é caótico e confuso na vida real (o universo físico, as motivações humanas, etc).

Esse conceito de Objetividade é muitas vezes uma pré-condição pra expressão de todos os outros valores nessa lista, e costuma ser naturalmente respeitado por obras que têm algum tipo de pretensão comercial, sendo desafiado apenas por artistas mais alternativos ou experimentais.

É por isso que eu valorizo tanto a clareza na direção cinematográfica, na condução da trama, e por isso sou crítico em relação a filmes Naturalistas, pós-modernos, que pretendem retratar a realidade de maneira complexa, ambígua, ou pior, criar um estado de confusão ainda maior do que o que temos num estado normal de consciência, diminuindo (em vez de aumentar) a confiança do espectador no poder de sua mente.


2. AUTOESTIMA

É o desejo humano de se sentir importante, especial, capaz, orgulhoso, de obter respeito e ser reconhecido por suas virtudes, de ser o melhor em algo, de acreditar no seu potencial individual. Uma obra de arte não consegue de fato dar autoestima a uma pessoa, mas pode simular / incentivar essa emoção, e lhe dar estímulo e confiança para conquistá-la em sua vida pessoal. Como sempre, a obra pode satisfazer esse desejo através do conteúdo (retratando um herói admirável, contando uma história de superação, por exemplo), mas principalmente através do estilo - das virtudes demonstradas pelo artista na realização da obra em si (virtudes como domínio técnico, originalidade, inteligência, profundidade, etc), provocando a admiração do espectador pelo trabalho em sua frente (ou seja, mesmo uma obra que retrate personagens maus pode ser inspiradora nesse sentido).

É por isso que sou crítico em relação a filmes Naturalistas, que não só costumam retratar personagens comuns, sem grandes virtudes, como também não demonstram grandes virtudes técnicas por parte do cineasta, que estão mais focados no retrato da realidade, na mensagem social, etc. E é por isso também que eu critico certas tendências atuais que vão contra a autoestima, como o fenômeno do Herói Envergonhado ou Romantismo Reprimido.


3. BENEVOLÊNCIA

É o desejo de acreditar que o universo é um lugar receptivo para o ser humano, harmonioso, onde a felicidade é possível e nossos valores podem ser atingidos. Que os homens podem ser perfeitamente morais, felizes, e que seus interesses não precisam estar em conflito. Que conflitos, a dor e o mal não são o estado natural da vida, e sim coisas para serem superadas. É um certo respeito pela inocência da infância, pela visão daquilo que o mundo poderia e deveria ser (mesmo um filme com final trágico ou um filme sobre um personagem decadente pode ter o valor da Benevolência, desde que ele culpe os resultados trágicos nas irracionalidades dos personagens, e não na vida em si, na natureza humana, etc). Isso pode ser visto no conteúdo - em histórias onde o bem é retratado positivamente e o mal negativamente, mas também na forma, na atitude geral do artista em relação ao público: na escolha de mostrar beleza, de se comunicar com o espectador, falar de assuntos que lhe interessam, mostrar relacionamentos atraentes entre os personagens, no desejo de provocar emoções prazerosas e inspiradoras no espectador, agradar seus sentidos, se adequar às suas necessidades, etc.

É por isso que sou crítico em relação a filmes com um Senso de Vida malevolente, valores destrutivos, filmes que cultuam a violência de forma inapropriada, que focam apenas em relacionamentos negativos, que glamourizam personagens cínicos e imorais, que são feitos pra expressar os sentimentos agressivos do artista em relação à plateia, etc.


4. DIVERSÃO

É o desejo por estímulo, excitação, prazer, emoções intensas, o desejo de fugir do tédio, da monotonia do dia a dia e dos estados normais de consciência, das regras e dos deveres chatos impostos pelos outros e pela sociedade. É o desejo de tornar a vida interessante e prazerosa. É o que nos faz buscar risada, aventura, catarse, magia, êxtase, adrenalina, terror, lágrimas, surpresas, etc. Isso pode ser visto no conteúdo de uma obra - por exemplo, em filmes onde os personagens passam por grandes aventuras, situações cômicas, etc, mas principalmente no estilo, na forma, no método em que a história é contada: se há suspense, envolvimento, surpresas, emoções intensas, se o ritmo é estimulante, se os eventos apresentados são incomuns, etc (ou seja, mesmo um filme sobre uma história trágica pode ser "divertido" nesse sentido).

É por causa do pilar da Diversão que enfatizo tanto a questão da narrativa, do envolvimento na história, do clímax, o Princípio da Ascensão, os Set Pieces, e é por isso também que critico filmes Naturalistas, sem história, ou filmes que colocam sua função social / educativa da obra acima da experiência da plateia.

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Ou seja, todo filme que eu avalio negativamente aqui no blog, é porque de alguma forma ele desrespeitou ou não foi bem sucedido em erguer esses 4 pilares, todos eles indispensáveis em algum nível.

Notem que em muitos pontos essas ideias começam a se sobrepor, e que é impossível expressar 1 desses valores sem começar a expressar alguns dos outros também. Por exemplo: pra demonstrar virtudes e inspirar Autoestima no espectador, é preciso primeiro que exista o valor da Objetividade em algum nível. E ao estimular esse sentimento de Autoestima na plateia, haverá também um senso de Benevolência envolvido na experiência.

Em postagens futuras posso explorar melhor algumas questões que possam surgir a partir daqui, como por exemplo o princípio do contraste. Pensem comigo: pra expressar o senso de Benevolência de maneira satisfatória, é preciso incluir uma certa dose do oposto disso na obra (medo, pessimismo, rejeição, etc), pois a mente percebe valores através de contrastes e comparações. Ou seja: pra ficarmos felizes que o casal fica junto no final, é preciso antes sentir o medo da perda. Pra ficarmos admirados com a superação do herói, é preciso antes sabermos de suas vulnerabilidades e temermos uma possível derrota.

Outra questão importante pra ser discutida é a do relativismo moral. Por exemplo: se uma pessoa acha que a razão é algo destrutivo e opressor, e sente um grande prazer vendo uma obra niilista pós-moderna, isso significa que a obra gerou Benevolência? Se uma pessoa frustrada com a própria vida sente satisfação ao ver o infortúnio de pessoas virtuosas, isso torna a obra Benevolente? Ou se um artista pouco confiante vê uma obra mediana e sente um certo alívio, isso gerou Autoestima? Se uma pessoa fuma crack diariamente e está a caminho da morte, o crack gera Diversão?

Minha resposta é não, pois acredito numa moralidade objetiva - ou seja, que aquilo que é bom, é bom porque de fato promove a vida, torna o ser humano mais apto a lidar com a realidade, viver uma vida saudável, bem sucedida, feliz, sem contradições, e portanto não pode ser considerado mau por outra pessoa, e vice versa.

Claro que no meio disso tudo há muito espaço para discussão, gostos individuais, diferenças perfeitamente aceitáveis entre as pessoas, o que não invalida a objetividade de certos princípios morais básicos.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Meu Malvado Favorito 3

NOTAS DA SESSÃO:

- Logo de cara fica clara a baixa pretensão artística / criativa do filme. Ideias fracas como a do chiclete gigante que faz levitar o navio; o desenvolvimento tolo da trama (a maneira como o vilão rouba o diamante); músicas pop ou cenas de dança que surgem aleatoriamente só pra manter um clima animado, etc.

- A produção é vazia de valores de entretenimento. Nem os Minions que são divertidos têm grandes momentos de humor, piadas bem elaboradas. E o filme é todo meio contaminado pelas tendências culturais atuais que são adversas ao romantismo. Eles tentam criar um entretenimento inteiro evitando justamente as emoções que são a alma do entretenimento, e que são consideradas tabu por certos grupos, como a ideia de autoestima. É mais ou menos o que digo nos textos Herói Envergonhado ou Romantismo Reprimido. Mas aqui me parece mais uma espécie de Veganismo Cultural (ideia pra um futuro post). Uma tentativa de alimentar o espírito das crianças mas proibindo as substâncias que realmente proporcionariam prazer e satisfação. "As crianças não devem se sentir especiais ou importantes, e elas também não devem ter ambição nem sonhar muito alto, então vamos garantir que não haja nenhum personagem atraente no filme, e que as crianças em particular sejam fisicamente feias na história, e que ninguém tenha um humor inteligente demais, e que o heroísmo retratado na aventura não seja convincente nem inspirador, apenas uma ação tola e irreal, e vamos inserir uma sequência que nada tem a ver com o filme onde a filha do Gru aprende que unicórnios não existem, só pro público infantil já ir se acostumando com desilusões e a reprimir seus desejos."

- Claro que os anos 80 têm que ser retratados de maneira cínica pelo filme (afinal, nada mais oposto ao "veganismo cultural" que eles propõem do que os anos 80) - tudo ligado à época parece meio patético e está associado ao vilão. O lado bom é que acabam tocando algumas músicas boas no filme (embora sob uma luz feia).

- Falta um mínimo de bom senso e plausibilidade na história. Que história é essa de ter que escalar a torre até um cubo mágico gigante no meio do mar? Depois que eles fogem com o diamante, como é que o vilão escapa do chiclete, coloca a máscara da Lucy, pega um helicóptero e consegue enganar o Gru em tão pouco tempo? É um tipo de niilismo que só pode fazer mal pro cérebro de uma criança.

- No final temos os anos 80 na forma de um grande monstro que volta pra aterrorizar Hollywood, jogando chiclete em tudo que é lugar e querendo mandar a cidade pro espaço (chiclete é tão doce e divertido que só pode ser obra do demônio).

- Qual o sentido dessa "dance fight" no final? Não tem o menor sentido o Gru propor uma dança na hora do confronto - é só mais uma oportunidade de colocar dancinhas e músicas divertidas no filme pra prender a atenção do público de forma imediatista e vulgar, já que não há emoções mais sólidas sustentando a história.

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CONCLUSÃO: Mais um caça-níqueis esquecível da Illumination Entertainment.

Despicable Me 3 / EUA / 2017 / Kyle Balda, Pierre Coffin

FILMES PARECIDOS: A Era do Gelo: O Big Bang (2016) / Angry Birds: O Filme (2016) / Minions (2015) / Meu Malvado Favorito 2 (2013)

NOTA: 4.0

sexta-feira, 30 de junho de 2017

O Jardim das Aflições

NOTAS DA SESSÃO:

- O documentário tem algumas boas imagens, e o fato de se passar nos EUA dá um ar mais sofisticado pra produção.

- Discordo: que o trajeto natural da humanidade seja o de querer abandonar o mundo real e viver num mundo falso de pensamento. Que viver no meio do mato seja viver no mundo real e viver na cidade seja viver num mundo irreal. Quer dizer que pra vida ser real as pessoas não devem usar a inteligência? Não devem interferir na natureza ao redor delas pra terem uma vida melhor?

- Discordo: que a liberdade tenha diminuído no mundo por causa da tecnologia, pois agora podemos ser vigiados à distância pelo governo, etc. Ele devia falar sobre direitos individuais, liberdade econômica, como cada governo tem agido em relação a isso, etc, e não focar em paranóias, culpar a tecnologia pelos problemas da atualidade.

- Olavo é contra o crescimento do estado, o que eu acho bom. Mas não gosto como ele diz que esse crescimento é inevitável, como se fosse um fato irreversível da natureza. Ele não incentiva ação, mudança. Como é que alguns países então são mais livres hoje do que eram há 100, 200 anos?

- Discordo: que seja mais importante saber a origem de nossas ideias do que os fatos que a suportam. Que a gente precise saber de onde um pensamento veio, se não estaremos sendo controlados por movimentos culturais. O que torna uma ideia válida ou não é sua relação com a realidade... Não importa quando ou por quem ela foi concebida.

- Há um senso de medo e perseguição por trás de tudo o que ele fala.

- Outro problema de Olavo é que ele não é claro e lógico em seu raciocínio. Vai apenas divagando sobre uma série de assuntos, se apoiando em sua enorme biblioteca pra parecer uma autoridade no que fala, mas sem explicar suas ideias racionalmente, sem estruturá-las ou organizá-las dentro de um propósito, etc. Por exemplo: ele começa a falar sobre hereditariedade, sobre o fato de nascermos com certas características que não podemos mudar. Qual o propósito dessa observação? Ele está falando sobre livre arbítrio? Sobre a felicidade humana e o que podemos fazer para atingi-la? Ele acredita que a felicidade seja o propósito da vida? Não sabemos... Não há um contexto claro, um propósito, são apenas "verdades" que ele vai jogando pros espectadores. Mesmo as coisas que eu concordo com ele, não tenho como saber se eu concordo pelos mesmos motivos, qual a razão dele acreditar naquilo, etc. Ele é contra o estado por que? Ele acredita na liberdade? Nos direitos individuais? É a favor do livre mercado? Ele nem toca nesses termos. Só sabemos que ele é contra a esquerda por algum motivo.

- Divertida a passagem onde ele diz que costuma atrair malucos (fato que não me surpreende) - mostra um lado mais leve e pessoal dele com o qual acho mais fácil de me identificar.

- Um absurdo ele, como um homem que se diz interessado no conhecimento, na realidade, dizer que o cristianismo é baseado em fatos, que não há dúvidas que Jesus existiu, ressuscitou, que milagres existem, etc. Não há nenhum esforço da parte dele de argumentar a favor disso, dar exemplos convincentes pra persuadir a plateia de forma honesta. Ele simplesmente afirma as coisas... diz "evidentemente", como se tudo fosse óbvio... O cristianismo está certo, a esquerda está errada, e Olavo só pode estar certo pois leu muito mais livros que você então ele "sabe das coisa".

- Outro absurdo é o trecho em que ele diz que ideias são como tábuas de salvação que os náufragos se agarram pra não afundarem. Que as ideias mais verdadeiras e importantes são aquelas que permanecerão com a gente até no momento da morte. Isso é puro subjetivismo. O fato de uma ideia te confortar no momento da morte não a torna real. Isso é uma tentativa de validar a religião. Ou seja: como na hora da morte ele precisará da religião pra amenizar seu medo (mais uma vez o medo parece estar ditando as crenças de Olavo), então a religião pode ser considerada a ideia mais verdadeira de todas! Não porque ela corresponde aos fatos e porque é necessária para a vida... Mas sim porque ela é necessária na hora da morte! A vida é como se fosse um grande preparo pra morte.

- Todo esse papo sobre a imortalidade também não faz o menor sentido. A ideia de que se uma folha balança numa árvore, isso é um fato eterno que nunca poderá ser desfeito... Isso significa que a eternidade existe? Que eu sou "imortal" só pelo fato de existir? O fato de que eu existo agora certamente nunca deixará de ser um fato. Mas como essa ideia poderia me confortar? Vai me alimentar? Me trazer felicidade? Sucesso? Impedir que eu adoeça, morra? Não... Mas talvez diminua um pouco meu medo na hora da morte, e pra ele isso já é o suficiente.

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CONCLUSÃO: Não acho Olavo de Carvalho mal intencionado, e em sua vida privada ele parece ser uma boa pessoa, mas como filósofo / pensador, não consigo levá-lo a sério (julgando por esse documentário e alguns vídeos que vi no YouTube).

O Jardim das Aflições / Brasil / 2017 / Josias Teófilo

FILMES PARECIDOS: Real - O Plano por Trás da História (2017)

NOTA: 4.0

Okja

NOTAS DA SESSÃO:

- Alerta Vermelho: o discurso inicial da Tilda Swinton passa a ideia de que a indústria e empresários em geral são maus.

- Fofa a Okja, bonitos os efeitos especiais e as locações no começo do filme.

- Mas péssima a tentativa de tornar a criatura simpática dando um close em seu ânus e mostrando fezes saindo por todos os lados (a ideia do filme de "humanizar" um personagem).

- Auto-sacrifício: o filme acha positivo o fato da Okja se jogar do penhasco pra salvar a Mija, como se isso a tornasse um ser melhor (fezes, auto-sacrifício - observem as estratégias que o filme está usando pra tornar Okja uma criatura gostável).

- Performance mais ridícula da carreira de Jake Gyllenhaal. Só o fato do filme escalar um ator tão charmoso quanto ele pra agir de forma constrangedora em frente às câmeras já diz algo a respeito da atitude da produção.

- Por mais triste que seja separar a garotinha de Okja, não dá pra torcer pra que ela invada a empresa, resgate o animal, pois ela estaria cometendo um crime. Okja não é dela, apesar do apego emocional. Se ela tivesse propondo uma negociação amigável, tudo bem, mas ela já chega estilhaçando o vidro da empresa, fazendo vandalismo, etc.

- Todo o conflito é forçado, feito pra gerar confusão, só pra tentar provar a mensagem mal intencionada do filme. Se Okja estava sendo criada pra ser um animal especial, que iria participar de concursos de beleza, etc, ela teria sido criada de fato no meio do mato, sem cuidados especiais? Num lugar que seus "donos" criariam apego por ela ao longo dos anos? E Okja viraria comida assim como os outros super-porcos comuns? O simples fato de Okja ser uma "celebridade" já não impediria a empresa de abatê-la?

- Esses ativistas da Liberação dos Animais são criminosos e o filme os retrata de maneira positiva, como se eles fossem os mocinhos. Eles batem no caminhão da Mirando, causam acidentes, apontam armas contra pessoas inocentes, roubam a propriedade da empresa - mas tudo é válido pois é por uma "boa causa". A narrativa não funciona pois não dá pra torcer nem por eles, nem pela garotinha (a mensagem social do filme está acima da experiência artística, o que é um defeito segundo meus critérios).

- A empresa coloca Okja pra cruzar com outro super-porco, e a cena é mostrada como se Okja estivesse literalmente sendo estuprada!!! Uma prova de que a empresa abusa dos animais (e uma crítica ao machismo talvez??)! Ridículo.

- Paul Dano (o ativista) se mostra uma "ótima" pessoa quando espanca violentamente o amigo por ter traduzido errado o que a garotinha falou. E por que o Paul Dano dá todo esse poder pra Mija de decidir qual o destino de Okja? Se o animal não é da empresa (segundo ele), então teoricamente Okja deveria ser do pai da Mija, e não da Mija que é uma criança - e o pai autorizou que Okja fosse devolvida pra empresa.

- A empresa corta pedacinhos de Okja pra eles provarem sua carne? Antes do concurso de beleza? E as cicatrizes? Obviamente isso não aconteceria (existem milhares de outros super-porcos, e a carne já está sendo produzida em grande escala) - mas claro, o filme precisa provar seu argumento de que os empresários e cientistas são malignos e gostam de torturar criaturas fofas! Como se o fato da humanidade comer carne fosse culpa da indústria, do "consumismo", e não algo que sempre ocorreu em todas as culturas por toda a história.

- Os ativistas são tão "benevolentes" que quando eles invadem a propriedade da empresa e estrangulam os guardas, um deles diz pro guarda: "Eu sinto muito por isso, esse não é um estrangulamento letal"!!!! (Não, isso não é uma piada.)

- SPOILER: No fim Mija consegue comprar de volta a Okja oferecendo ouro pra Tilda Swinton? Por que venderam pra ela agora e não pro pai no começo do filme, que tentou a mesma coisa? E isso é um final "feliz"? Ou o "mal" (a empresa) venceu? Okja voltou pra casa, mas os ativistas não conseguiram parar o consumo de super-porcos. Os outros todos serão mortos. Se o filme fosse apenas sobre a amizade entre Mija e Okja, bastaria as duas ficarem juntas no fim pra haver um final feliz. Mas claramente o filme queria passar uma mensagem maior, pró-vegetarianismo, direitos dos animais, etc. Então esse "final feliz" onde Okja é salva porém milhares de outros super-porcos são mortos acaba tendo um tom inapropriado e inconclusivo.

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CONCLUSÃO: Uma história tola pra te dizer que, se você come carne, você é imoral e inferior aos realizadores do filme (apenas carne vermelha - peixe aparentemente está liberado pois a protagonista pesca no começo do filme e não é retratada negativamente por isso).

Okja / Coréia do Sul, EUA / 2017 / Bong Joon-ho

FILMES PARECIDOS: Zootopia (2016) / Expresso do Amanhã (2013) / Como Treinar o Seu Dragão (2010)

NOTA: 2.5

terça-feira, 27 de junho de 2017

Twin Peaks - Episódio 8

Não é longa mas foi uma das melhores coisas que vi nos últimos anos. David Lynch certamente não é pra todos os gostos, e essa nova temporada de Twin Peaks até agora estava dividindo um pouco as opiniões dos fãs, mas quem curte seu estilo não pode deixar de chegar até (pelo menos) esse 8º Episódio, que é possivelmente uma das horas mais inspiradas de sua carreira.

Não importa a arte, o gênero, o estilo... Ver um artista se superando (ainda mais aos 71 anos de idade) e criando algo realmente extraordinário como Lynch faz aqui é algo que sempre me tira o fôlego.

domingo, 25 de junho de 2017

Ao Cair da Noite

NOTAS DA SESSÃO:

- Fortíssima a sequência inicial (eles tendo que sacrificar o pai da Sarah). Pra quem ainda não sabe sobre o que é a história (como eu), é um início intrigante que levanta uma série de perguntas e gera curiosidade.

- Tudo no filme soa bastante autêntico, autoral, a direção soa "simples" e (talvez por isso) diferente da maioria dos filmes atuais. A fotografia é ótima - os planos mais abertos, sem muitos cortes - há uma qualidade orgânica na imagem que dá a impressão que o filme foi rodado em 35mm (o que eu duvido), e que acaba remetendo a produções dos anos 70/80 (a locação na floresta ajuda também).

- O protagonista (Joe Edgerton) não é um personagem muito gostável - a atitude dele em relação ao invasor (Will) é excessivamente violenta, e mesmo a relação dele com a própria família é meio dura e desagradável.

- Depois que as 2 famílias se juntam na casa e começam a conviver, a história dá uma estacionada. Falta uma ameaça mais específica, algo pro espectador temer, pros personagens buscarem. Dá a impressão que nem monstro vai ter no filme. Que vai ser apenas um filme sobre pessoas confinadas numa casa (tipo Rua Cloverfield, 10). O problema é que nenhum dos personagens é muito gostável e não há nada de divertido pra aguardar na história. O filme é totalmente focado em relações conflituosas. Um grupo não confia no outro, todos são ameaças em potencial, o filme insiste o tempo todo em criar situações desagradáveis entre os personagens: o filho adolescente sendo inconveniente ao dar em cima da mulher do Will, ou então quando ele corre pra floresta atrás do cachorro e leva uma dura do pai, ou quando os 2 homens vão tomar um drink (e quase surge um clima de amizade), mas tudo é arruinado com a mentira que o Will conta a respeito do "irmão", ou a porta vermelha que aparece aberta e cria um clima de medo e desconfiança entre todos. Ninguém vivencia nada de positivo na história do começo ao fim. É só um retrato de gente paranóica, obcecada por segurança, vivendo numa situação horrível pra não serem infectadas por algo que nem sabemos o que é.

- Se formos pensar, a premissa não é muito realista e parece ter sido criada só pelos problemas que iria causar (juntar as 2 famílias na mesma casa, etc). No começo do filme, o Will invadiu a casa pois achou que ela estava vazia. Mas o cachorro latiu dentro da casa enquanto ele tentava arrombar a porta. Como ele achou que ela estava vazia? Por que ele invadiu a casa então se sabia que tinha gente dentro e estava correndo perigo?

- SPOILER: Quando eles começam desconfiar que o filho pequeno do Will pode estar infectado, eles deviam simplesmente expulsar a família da casa, e assim ficaria tudo bem. Mas não: eles decidem permanecer juntos, e claro que não dá certo. O final todo é apenas uma desculpa pra mostrar violência. Não faz nenhum sentido toda essa matança, é um conflito forçado que só serve pra expressar o senso de vida negativo do cineasta - como se tragédia e brutalidade em si fossem sinal de sofisticação, maturidade artística.

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CONCLUSÃO: Bem dirigido, autêntico, bonito visualmente, mas a história é pouco divertida e excessivamente focada no negativo.

It Comes at Night / EUA / 2017 / Trey Edward Shults

FILMES PARECIDOS: O Homem nas Trevas (2016) / Rua Cloverfield, 10 (2016) / A Bruxa (2015) / Ex_Machina: Instinto Artificial (2014)

NOTA: 5.5

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O Círculo

NOTAS DA SESSÃO:

- É tudo meio esquisito desde o começo. A primeira cena é a Emma Watson num caiaque, daí ela olha o telefone não se sabe por que, depois conhecemos o trabalho dela, depois tem a cena em que o carro quebra e é introduzido um interesse romântico com o Mercer, daí surge o tema do pai doente... Tudo isso em menos de 10 minutos, e nem sabemos ainda sobre o que é o filme, o que é o Círculo, qual o objetivo da menina, etc.

- Boa a entrevista que ela dá quando chega no Círculo. Mostra uma garota sofisticada, inteligente, sensata.

- É interessante a maneira como O Círculo é apresentado. À primeira vista o lugar impressiona, a protagonista parece estar interessada, mas pra plateia já fica uma sensação de que há algo de errado com a filosofia da empresa (a nova câmera que eles inventaram, etc), o que cria um interesse central na história (queremos saber quando a Emma Watson irá descobrir que o lugar é "do mal", e quando tudo entrará em colapso).

- O tom do filme sempre parece um pouco errado. A relação da Emma com os pais não convence, a maneira forçada como ela aborda o rapaz negro na festa, a cena "cômica" onde os 2 funcionários abordam ela no trabalho e começam a fazê-la socializar mais, etc.

- Meio falso o John Boyega ser o tal do Ty Lafitte, alguém extremamente importante, e viver dentro do Círculo sem que ninguém saiba. Parece estranho também ele ter que convencer a Emma Watson de que a empresa está indo pelo mau caminho. Ela já deveria ter sacado isso por conta própria (tanto que achou um absurdo a ideia de implantar chips nos ossos de bebês, etc).

- A mesma coisa quando o Mercer vai até o Círculo conversar com ela: ele dá uma "dura" nela como se ela tivesse mudado de caráter, estivesse "possuída" pelo Círculo, mas pra plateia ela ainda parece perfeitamente normal. Não fez nada de estranho ao publicar a foto do trabalho dele.

- Péssima a cena do acidente de caiaque! Por que ela sai de caiaque no meio da noite? Invade o lugar? O acidente todo é muito mal filmado / dirigido.

- A personagem começa a perder toda a simpatia do público (e a verossimilhança) quando começa a se "vender" pro Tom Hanks, apoiar as ideias dele, faz aquele discurso ridículo no Círculo sobre "direitos humanos", etc. Uma personagem tão equilibrada como ela se mostrou no começo jamais mudaria assim de uma hora pra outra. A gente perde toda a conexão com a história.

- E a crítica do filme é mal feita. Essa ideia de acabar com a privacidade de todo mundo nunca seria aceita pelas pessoas normais. Já não está dando certo até dentro do Círculo, com apenas a Emma Watson expondo sua vida. Imagine isso aplicado à população inteira. Em Black Mirror há uma discussão parecida sobre privacidade, mas lá a situação assusta e parece possível, pois mostra como pessoas mal intencionadas poderiam usar a tecnologia moderna pra invadir sua vida... Mas não tenta criar um mundo fictício onde a própria população seria a favor do fim da privacidade.

- As pessoas ficam dizendo pra Emma Watson que ela é incrível, que ela está mudando o mundo. O que ela fez de tão revolucionário até agora? Expor a própria vida online como tanta gente já faz? Ter a ideia das eleições acontecerem através da conta do Círculo? Não vimos nada de genial até agora que justifique todo esse status.

- SPOILER: Divertido o Mercer morrer, embora seja forçada a maneira como todos saem correndo atrás dele - até parece que a Emma Watson (e a empresa) deixaria as coisas chegarem a esse ponto. E essa morte acaba criando um anticlímax... Já aconteceu o pior que poderia acontecer no filme e ainda falta meia hora pra acabar. Pra onde a história poderá ir depois disso?

- SPOILER: A gente espera que depois da morte do Mercer a Emma Watson finalmente "acorde" e faça algo pra destruir a empresa... e por um momento dá a impressão que é isso que ela está fazendo (quando parece estar desmascarando o Tom Hanks em público, etc). Mas depois é confuso... Em vez de desmascarar o Tom Hanks, fica a impressão de que ela estava de fato acreditando na ideia de que com o fim da privacidade as coisas irão melhorar, que continua apoiando O Círculo. É certamente um dos piores finais de filme que eu já vi.

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CONCLUSÃO: Começa com uma premissa interessante, mas o roteiro se perde completamente da metade pra frente.

The Circle / Emirados Árabes Unidos, EUA / 2017 / James Ponsoldt

FILMES PARECIDOS: A Cura (2016) / O Doador de Memórias (2014) / Ender's Game: O Jogo do Exterminador (2013) / A Hospedeira (2013)

NOTA: 3.5

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Colossal

NOTAS DA SESSÃO:

- Anne Hathaway fica sempre bem fazendo essas garotas meio losers, perdidas na vida (e ao mesmo tempo atraentes, divertidas).

- O filme começa com um tom excêntrico, uma mistura incomum de gêneros, diálogos e personagens divertidos. Prende a atenção simplesmente por ser absurdo - queremos saber a relação do monstro do prólogo com o resto da história, coisas que parecem completamente incompatíveis.

- Hilário a Anne vendo as notícias de Seul, e toda a sequência em que ela começa a descobrir sua relação com a criatura. A premissa é absurda, mas como a abordagem é cômica, acaba convencendo (lembra coisas do Spike Jonze). Só espero que haja um significado maior pra isso tudo, não seja apenas bizarrice pela bizarrice.

- Uma coisa estranha no filme é que ele tem uma linguagem absolutamente convencional. Nada no visual, nas performances, na fotografia, na direção, na trilha sonora sugerem um filme excêntrico. Apenas os acontecimentos do roteiro. Quando você vê um filme de um autor realmente excêntrico, mesmo que a história seja normal, essa característica acaba se revelando na obra em diversos elementos, pois tudo está sendo decidido por uma pessoa que realmente pensa de forma única e diferente. Aqui fica parecendo um cineasta cult "wannabe".

- A história é interessante até o momento em que a protagonista descobre que controla o monstro, conta pros amigos, etc. Depois disso o roteiro perde a força e não sabe muito bem o que fazer com essa premissa.

- O que alcoolismo tem a ver com isso tudo? A conexão entre os diversos temas do filme não é clara.

- Os conflitos que vão surgindo entre os personagens não são muito sólidos e convincentes. Eles estão no meio de um evento inexplicável, com a vida de milhares de pessoas nas mãos, e ficam se desentendendo por causa de álcool, drogas, fazendo chantagens sem sentido. Não fica claro qual o tema do filme, o que está sendo discutido, e como a ideia do monstro em Seul se encaixa nisso tudo.

- Aos poucos o filme vai mostrando que não tem um grande conteúdo por trás da maluquice. Que o cineasta está apenas brincando de ser excêntrico, como se isso fosse um valor em si. A cena em que o Oscar explode fogos de artifício dentro do bar, por exemplo, não tem o menor sentido, exceto o de provar pra plateia o quão "diferente" é o filme.

- Por que Oscar quando criança destrói o trabalho da amiga? Qual a motivação por trás dessa agressão? O que isso diz a respeito da relação entre os dois? Falta desenvolvimento de personagem. Por mais que a história do monstro seja absurda, o filme deveria ser claro pelo menos no que ele quer dizer num nível humano / emocional.

- SPOILER: O final é uma tolice (Anne viajar pra Seul e de lá conseguir ficar maior que o robô, porém invisível - só na mente do roteirista isso deve ter qualquer lógica).

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CONCLUSÃO: Interessante pela originalidade, mas a excentricidade do filme não parece fundada em real talento e conteúdo.

Colossal / EUA, Canadá, Espanha, Coréia do Sul / 2016 / Nacho Vigalondo

FILMES PARECIDOS: Sete Minutos Depois da Meia-Noite (2016) / O Lagosta (2015) / Quero Ser John Malkovich (1999)

NOTA: 5.5

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A Múmia

NOTAS DA SESSÃO:

- O prólogo todo é meio clichê e desinteressante (os flashbacks explicando a maldição da Princesa Ahmanet, etc). Há algo de estranho no conceito do filme - histórias sobre múmias, faraós, não parecem combinar com um filme que se passa nos tempos atuais, na Inglaterra, em guerras no Oriente Médio, etc (é tudo pra tentar enfiar a história nesse "Dark Universe" que a Universal inventou). O filme também tenta forçar um tipo de humor / alívio cômico nos personagens que remetem a filmes escapistas do passado, o que também não combina com o ambiente em que ele se passa. Pra ficar tudo ainda mais estranho, Tom Cruise parece errado no papel, como se o personagem tivesse sido escrito pra um adolescente interpretar (algo meio Shia LaBeouf em Transformers), e na última hora ele tivesse assumido o papel.

- Por que militares pegam o sarcófago da múmia, colocam num avião, como se fosse uma operação de guerra? Dá a impressão que só inventaram isso pra ter a cena da queda do avião e o Tom Cruise poder fazer os "stunts" que ele adora. Mas não faz muito sentido.

- A química entre o Tom Cruise e a mocinha (Jenny) não funciona em nada. Ele parece estar tentando agir como um galã novinho, e ela com essa aparência não convence em nada como uma arqueóloga séria realizando o trabalho de sua vida.

- Tudo é meio falso. Tom Cruise sofre uma queda de avião, depois é surpreendentemente encontrado vivo no necrotério, e as pessoas reagem como se fosse uma questão de "sorte"? No dia seguinte ele está no bar com a Jenny tomando uns drinks de forma descontraída? Daí no local da queda de avião, a múmia é encontrada à noite por 2 policiais que passavam por ali... Cadê os bombeiros, os helicópteros, a mídia, etc?

- Coincidências ruins: por que a tumba na Inglaterra (nas escavações do metrô) é encontrada praticamente ao mesmo tempo em que a múmia no Iraque?

- Péssima a ideia de transformar o Vail numa espécie de fantasma / zumbi engraçado que aparece pro Tom Cruise no espelho, etc. De repente o filme parece ter virado uma comédia explícita. Há um sério problema de tom no filme (além do "tom do Tom").

- Odeio essa mistura de filme de monstro com filme de visões, alucinações. Tom Cruise de repente começa a viajar mentalmente de um lugar pro outro, não sabemos mais o que é real e o que é imaginação, o que só ele vê e o que as outras pessoas também podem ver.

- A múmia não é nada assustadora como vilã. Ridícula a cena em que ela faz cócegas no Tom Cruise, depois ele brinca que ela está tentando dar em cima dele.. O filme não sabe inserir humor nos momentos certos, sem comprometer a seriedade da história.

- SPOILER: Além de múmias, fantasmas, zumbis, alucinações, agora temos também O Médico e o Monstro???? Que bagunça!!!!

- Horrível essa cena em que a múmia grita e todos os vidros começam a explodir, de repente surge uma tempestade de areia em Londres, Cruise é ajudado pelo amigo zumbi/fantasma... É uma ideia ruim após a outra.

- No momento de maior "tensão", Cruise simplesmente tapeia a múmia com uma brincadeira infantil, faz umas piadinhas, e rouba a adaga da mão dela.

- SPOILER: Toda a conclusão é péssima. Cruise se sacrificar pra ressuscitar a mocinha, como se fosse um romance épico pelo qual a plateia se importasse. E no fim o deus Set era tão fraco que simplesmente por Cruise ser um "bom homem", ele não se torna a personificação do mal como deveria.

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CONCLUSÃO: Simplesmente errado.

The Mummy / EUA / 2017 / Alex Kurtzman

FILMES PARECIDOS: Êxodo: Deuses e Reis (2014) / O Cavaleiro Solitário (2013) / Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo (2010) / A Lenda do Tesouro Perdido (2004)

NOTA: 3.5

sábado, 3 de junho de 2017

Real - O Plano por Trás da História

O filme passa a estranha sensação de ser algo feito pra ser exibido em faculdades, telecursos ou algo do tipo (a direção, os atores - é tudo meio antiquado mas tentando parecer moderno). Outro fator que enfraquece o filme é a falta de valores positivos na história. O protagonista tem um caráter duvidoso, é retratado de maneira ambígua. Ao mesmo tempo em que o filme o glamouriza, ele faz uma crítica à sua ambição (enfatizando seus aspectos negativos) que me parece inadequada pro propósito da história. Ao longo do filme surgem várias questões que deixam o espectador na dúvida de se Gustavo Franco fez bem de fato para o país, ou se é uma espécie de anti-herói. Você não sente que ele é alguém com um sonho nobre fazendo de tudo para realizá-lo (como você sente num filme como Steve Jobs, por exemplo) - fica mais a impressão de um homem de baixa autoestima buscando poder a qualquer custo, querendo subir na vida pra conquistar mulheres, controlar os outros (ele é fã de Napoleão, etc). É como se os produtores quisessem ter dado um tom meio House of Cards pro filme pra torná-lo mais "cool", porém isso acaba deixando tudo com um tom moralmente duvidoso. A estrutura do roteiro também é insatisfatória... O Real já "dá certo" bem no meio do filme, e a partir daí não há muito mais o que esperar... O filme termina num bate boca inconclusivo entre Gustavo e um petista durante a CPI, e fica a cargo dos letreiros finais explicar o que aconteceu depois. Teria funcionado melhor como documentário pois as pessoas por trás da produção pareciam estar mais interessadas no aspecto político / econômico do filme do que em fatores cinematográficos (como ficção não funciona nem como um bom filme, e nem serve pra esclarecer o Plano Real termos econômicos pro público leigo).

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(Brasil / 2017 / Rodrigo Bittencourt)

FILMES PARECIDOS: Margin Call - O Dia Antes do Fim (2011)

NOTA: 4.0

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Mulher-Maravilha

NOTAS DA SESSÃO:

- Lindo todo o visual da ilha na primeira parte. Interessante a apresentação da personagem, o mistério a respeito de sua origem, Diana desde pequena querendo aprender a lutar, depois de grande começando a descobrir seus poderes especiais. Gal Gadot está simplesmente fenomenal.

- Ótima a sequência da batalha na praia. Visualmente atraente, dá uma dimensão real das forças e das fragilidades das Amazonas (elas podem ser mortas por balas, por exemplo - detalhes importantes de serem estabelecidos que quase todos os filmes de super-heróis ignoram).

- Chris Pine também está excelente como par da Gal Gadot. A história dele é interessante, bem introduzida (toda a mistura da guerra com esse elemento fantástico cria um contraste muito bem dosado).

- A Mulher-Maravilha em si não tem uma motivação muito interessante (como quase todos os super-heróis ela luta pois esse é o seu "dever"). Porém, como disse no vídeo Motivação de Personagem, o mais importante no fim não é a motivação do personagem, e sim a motivação da plateia. E aqui há vários elementos que geram curiosidade na história - a tensão romântica entre o casal, o desejo de ver a heroína explorar seu potencial (é tudo muito contido no começo), o fato dela esconder seus poderes dos humanos e ir revelando suas virtudes pros outros aos poucos, etc.

- Interessante quando a Gal Gadot flagra o Chris Pine pelado na banheira - há uma inversão de papeis divertida aqui: o homem sendo mais sexualizado, virando a figura mais vulnerável, e a mulher na posição de controle (como na cena do barco onde a Gal Gadot praticamente força o Chris a dormir junto com ela).

- Que alívio ver um super-herói que realmente honra a palavra "super". Quando ela escala a torre, pega a espada, começa a se preparar pra missão, a plateia realmente sente que não há limites pra força dela. Diferente da maioria dos filmes atuais do gênero que ficam se esforçando pra mostrar os defeitos do herói, acrescentar detalhes realistas pra tudo. Aqui, mesmo nas batalhas mais intensas, não temos a sensação de que a heroína está sendo danificada, perdendo sua força, ela brilha do começo ao fim.

- Princípio da Ascensão: O roteiro é muito bem estruturado. Estamos em 40 minutos de filme e a protagonista só agora vai pegar o barco e ir pro mundo real. Já aconteceu um monte de coisa interessante mas a sensação é que o melhor ainda nem começou. Em 1 hora de filme temos a primeira luta real dela sozinha no mundo real (na cena do beco).

- A relação entre o casal é ótima: a Gal Gadot sendo extremamente ingênua em relação a tudo e as reações divertidas do Chris Pine (ela falando da guerra como se tivesse indo à feira, as discussões sobre sexo, ela querendo tirar a roupa no meio da rua, etc). Amo a pureza da personagem, não há um pingo de malícia e cinismo nela. E ela parece estar se divertindo na história, não é desses heróis que agem como se a vida fosse trágica (e também não é dessas heroínas mulheres que precisam perder a feminilidade pra se provarem fortes).

- Algo atraente na produção é que a fotografia / direção de arte tem cara de cinema mesmo, e não de vídeo game.

- Outra coisa que gera interesse é a certeza dela de que o Ludendorff é Ares, o Deus da Guerra, algo que soa absurdo tanto pros outros personagens quanto pra plateia. Queremos descobrir se ela está certa.

- Fantástica a cena na guerra onde ela se "veste" pela primeira vez de Mulher-Maravilha e sai enfrentando os alemães (os detalhes lindos das faíscas em câmera lenta quando as balas atingem o traje dela).

- SPOILER: É divertida a sequência em que ela mata o Ludendorff com a espada (beira o politicamente incorreto), mas fica a sensação de que a balha foi muito simples, que ele não era páreo pra ela - frustração que é compensada logo na sequência, quando descobrimos que o vilão no fundo era outro. Agora sim ela parece ter um obstáculo à altura.

- Por sinal, a trilha sonora é ótima!

- O vilão é bom e a conversa que ele tem com ela é fascinante, faz o espectador pensar, questionar se ele está de fato errado, traz toda uma discussão filosófica sobre a natureza humana que aprofunda conflito. No meio disso Diana também aprende sobre suas origens, o que torna a personagem mais interessante, etc.

- SPOILER: Claro que não ia faltar a cena obrigatória de auto-sacrifício. Mas mesmo isso aqui é bem feito. Primeiro porque não é um auto-sacrifício fajuto, onde o personagem depois dá um jeito de sobreviver. Chris Pine decide morrer, e o faz sem hesitar e sem lamentar. Além disso, não foi uma morte inútil, só pra mostrar que o personagem é altruísta - na história, ela é fundamental pra vitória da Mulher-Maravilha, pois após esse ato, ela vê que as afirmações do vilão a respeito da raça humana não são verdadeiras - e assim consegue derrotá-lo. É um conflito de bem versus mal simples mas ao mesmo tempo muito bem elaborado e de certa forma inspirador.

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CONCLUSÃO: O melhor filme de super-herói de toda essa "era".

Wonder Woman / EUA / 2017 / Patty Jenkins

FILMES PARECIDOS: O Espetacular Homem-Aranha (2012) / Capitão América: O Primeiro Vingador (2011) / Supergirl (1984) / Superman: O Filme (1978)

NOTA: 8.5

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar

NOTAS DA SESSÃO:

- A história começa bem: os personagens principais são bem apresentados (o desejo do garotinho de salvar o pai), a entrada divertida do Johnny Depp no cofre (a cena de ação subsequente é meio falsa, mas é bem dirigida).

- O personagem do Brenton Thwaites é unidimensional, mas é um herói atraente. A mocinha não substitui a Keira Knightley, mas convence como uma garota inteligente, interessada em ciência, etc.

- É um pouco mal explicado como os 3 personagens principais se encontram na ilha - parece que foi uma grande coincidência eles estarem todos ali (Depp trocar sua bússola por uma bebida também pareceu um pontapé meio forçado na história).

- A direção é surpreendentemente boa (não conhecia essa dupla de diretores - eles fizeram Expedição Kon Tiki em 2012). Nada acontece na tela sem um propósito, tudo o que precisa ser comunicado em termos de ação é comunicado de maneira objetiva... Até nas ideias absurdas (a ação às vezes passa do ponto em termos de exagero, como por exemplo a cena da gilhotina) há um esforço admirável em ser claro visualmente (nos blockbusters em geral, é tudo uma grande bagunça, você nunca sabe o que está acontecendo, mesmo quando a ação é plausível). Independentemente do conteúdo, os bons filmes acabam proporcionando também esse prazer mais sutil que vem da apreciação da linguagem.

- Um aspecto duvidoso da história é que dá a impressão que o vilão (Javier Bardem) na verdade é inocente, afinal ele só estava querendo se defender de piratas, que na prática são os criminosos! A gente "torce" pro Johnny Depp não porque ele está certo moralmente, mas sim porque ele é mais divertido.

- Costumo reclamar que nos filmes de fantasia atuais os heróis nunca estão atrás de um tesouro interessante o bastante (é sempre um "orbe" ou um objeto estranho que nem sabemos direito pra que serve). Nesse ponto o filme acerta: não só o Tridente de Poseidon é um objeto atraente em si, como também sabemos o poder que ele tem e como isso impactará as vidas dos protagonistas.

- Bonita a ilha das estrelas, a sequência no fundo do mar... O filme tem alguns cenários divertidos (ao contrário de alguns episódios da série que ficavam sempre em ambientes sujos, chuvosos, porões escuros de navios, etc).

- SPOILER: Meio desnecessário o Geoffrey Rush se sacrificar. É confuso os vilões continuarem maus após a maldição ser quebrada. A gente não torce pra eles morrerem, como acaba acontecendo quando o mar se fecha.

- SPOILER: Bonito o final (o reencontro com o Orlando Bloom). E de quebra ainda temos uma participação da Keira! O comentário do Jack Sparrow ao ver os casais é ótimo.

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CONCLUSÃO: Nada de muito inovador em termos de história, mas um dos Piratas mais agradáveis até agora.

Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell no Tales (EUA / 2017 / Joachim Ronning, Espen Sandberg)

FILMES PARECIDOS: X-Men: Apocalipse (2016) / Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (2015) / Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas (2011)

NOTA: 7.3