quarta-feira, 26 de julho de 2017

Emoções Irracionais

Na postagem Os 4 Pilares do Entretenimento, eu disse que Objetividade é uma das qualidades fundamentais dos bons filmes, e que em geral os filmes comerciais respeitam esse princípio, que é mais desafiado por filmes alternativos, abstratos, pós-modernistas, etc.

Mas existem formas em que até os filmes comerciais podem trair esse princípio - não por um desejo consciente de tornar a experiência subjetiva, e sim por uma falta de habilidade dos próprios criadores.

Vou especificar aqui uma maneira particular em que os filmes podem trair esse princípio da Objetividade:

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Os filmes podem tentar provocar emoções / reações / impressões de forma racional ou irracional no espectador.

Uma "emoção racional" é quando o filme apresenta fatos, eventos, e espera que o espectador reaja / se emocione com base nesses fatos, após assimilar aquilo que viu, e julgar de acordo com seus valores.

Uma "emoção irracional" é quando o filme tenta provocar emoções de maneira direta, "analógica", apelando para os instintos primários do espectador - por exemplo, usando música, fazendo o atores emularem certas emoções na tela e esperando que a mesma emoção surja no espectador por "osmose", driblando a mente e apelando diretamente para o lado mais emotivo da plateia.

Não estou sugerindo aqui que esses recursos (trilha sonora, interpretação) sejam maus - apenas que eles não devem tentar substituir os fatos e o conteúdo da história. Nos bons filmes, as 2 coisas acontecem em conjunto: a história te conduz a uma certa emoção, e daí o cineasta utiliza todos os "truques" cinematográficos junto com os atores pra tornar aquela emoção mais vívida, intensa, real.

Os bons cineastas pressupõem sempre que o espectador seja racional e não esteja sujeito a manipulações baratas. Infelizmente, a verdade é que a maior parte da plateia está sim sujeita a essas manipulações, e responde prontamente a impressões superficiais, aparências, sensações, reações, como se fossem equivalentes a fatos.

Por causa dessa deficiência, alguns filmes e cineastas conseguem se tornar extremamente populares, apenas por saberem apertar esses "botões" e apelarem para o lado irracional dos espectadores (assim como um político pode chegar à presidência de um país sem ter nada de coerente para dizer, sem explicar claramente seus planos, apenas conseguindo criar certas emoções em seus discursos, sendo um bom show-man, desenvolvendo seu carisma e sua imagem pessoal, passando um "ar" de poder e respeitabilidade que não estão fundados na realidade).

Pra ilustrar o que seriam emoções racionais, vamos pegar como exemplo o filme E.T. - O Extraterrestre (1982). Certamente a performance de Henry Thomas, os efeitos especiais, a música de John Williams contribuem muito para o impacto emocional do filme. Mas se o espectador se emociona no final, na sequência de despedida, por exemplo, não é apenas porque os personagens estão chorando em sua frente e a orquestra está tocando uma música bonita - e sim porque os eventos da história o prepararam para aquele estado (talvez para o espectador puramente emocional, bastassem as lágrimas, as reações e a música fora de contexto, mas um bom filme sempre tentará atingir o espectador consciente).

Por que a plateia está correta em ficar triste com o fato de E.T. ir embora? Porque o filme estabeleceu, cena após cena, ao longo do filme inteiro, que E.T. é um valor importante para o protagonista. Nós primeiro vimos como era a vida de Elliott antes da chegada de E.T. (uma criança que ninguém levava a sério, levando uma vida comum, tentando fazer parte da turma sem sucesso, sendo perturbado pelos colegas da escola, pelo irmão mais velho, etc), e depois vimos como E.T. transformou tudo isso para melhor. Como ele fez de Elliott um garoto mais forte, responsável, respeitado, tornou sua vida mais excitante, grandiosa, etc. E tão importante (ou mais) que E.T. ser um valor para Elliott, é o fato de E.T. ser um valor pra plateia - pelo personagem ter tornado a experiência do espectador mais agradável. Ao longo do filme, E.T. foi o causador de uma série de emoções prazerosas na plateia. O espectador riu com seu jeito atrapalhado, se encantou com seus poderes mágicos, etc. Então quando E.T. vai embora, a plateia não se comove apenas por consideração a Elliott, mas também por interesse próprio, porque o espectador também sentirá falta do personagem e das emoções positivas associadas a ele:

https://www.youtube.com/watch?v=gTVoFCP1BLg

Ou seja, o espectador tem razões palpáveis pra se emocionar no final. De maneira simplificada, podemos colocar dessa forma: o espectador fica feliz quando um personagem que foi estabelecido como uma boa pessoa conquista algo que foi estabelecido como desejável e de primeira importância pra ele (especialmente quando isso também é essencial pra felicidade / prazer do espectador na história). E o espectador fica triste quando um personagem que foi estabelecido como uma boa pessoa perde algo que foi estabelecido como desejável e de primeira importância pra ele (especialmente quando isso também era essencial pra felicidade / prazer do espectador na história).

Não adianta mostrar uma mãe perdendo um filho, filmar uma cena trágica de guerra, e achar que isso automaticamente comoverá o espectador por serem coisas "intrinsecamente" tristes. Isso não irá convencer o espectador consciente, que tem controle sobre suas emoções. Mas se a abordagem do cineasta for correta, ele poderá comover o espectador até com a "morte" de objetos inanimados, como por exemplo a bola de vôlei do filme Náufrago (2000).

https://www.youtube.com/watch?v=LHtgKIFoQfE

Estou focando aqui na emoção de tristeza, mas isso vale pra todas as emoções e reações que um filme pode causar: um senso de vitória, a surpresa de uma reviravolta na trama, um sentimento romântico, etc. Há sempre a maneira racional de provocar essas emoções, e a maneira falsa, desonesta, que apela pra impressões, aparências, clichês, etc.

Imagine por exemplo um filme de esporte onde os heróis precisam vencer a disputa final. Pro espectador ficar feliz com a vitória, algumas coisas teriam que ser estabelecidas antes. Primeiro, os protagonistas têm que ser pessoas boas pelas quais vale a pena torcer. Depois temos que ter uma noção da importância da vitória pra eles. O que aquilo significará, que mudança irá trazer... E temos que saber do lado negativo também. O que de ruim pode acontecer caso eles não conquistem esse objetivo, e também por que os adversários não merecem a vitória. O espectador tem que ter também um "gostinho" das emoções negativas de desilusão, derrota, vergonha ao longo da história, pra que daí sim, quando ocorrer a vitória, ele tenha uma base pra ficar feliz. Essa seria a forma de criar uma emoção racional.

Ainda assim, através do poder do cinema, é possível provocar arrepios e reações superficiais no espectador simplesmente através da técnica, da manipulação, do uso da música, apelando pro subconsciente, etc. E muitas vezes, mesmo o espectador racional pode se ver "caindo" nessa manipulação - se arrepiando contra sua vontade, com um misto de prazer e ressentimento... mas serão sempre emoções descartáveis se sua mente não estiver igualmente comprometida com a história.

Alguns dos mestres das emoções irracionais atualmente são cineastas como Christopher Nolan e M. Night Shyamalan, provavelmente por serem ótimos diretores mas não tão brilhantes como roteiristas.

Peguem por exemplo a cena do filme Interestelar (2014) onde o personagem do Matthew McConaughey, que está há anos numa missão espacial, abre mensagens de vídeo de seus filhos na Terra e começa a chorar:

https://www.youtube.com/watch?v=MoLkabPK3YU

Se nos emocionamos com essa cena, não podemos dizer que é pelo apego que tínhamos em relação aos personagens dos filhos, pela importância que o protagonista atribui à paternidade, etc. A emoção vem fora de contexto, simplesmente por causa da performance do ator, da música, da edição, e por causa da vaga noção de que é triste estar separado de seus filhos. Nada que tenha de fato sido estabelecido como um valor dentro do contexto da história. Se Interestelar fosse um livro e lêssemos essa cena no papel, ela dificilmente teria um grande impacto emocional, pois estaríamos apenas lidando com os fatos da história, sem o poder do cinema de forjar certas sensações.

Em muitos de seus filmes, Nolan usa métodos parecidos pra provocar a impressão de profundidade e inteligência. Em vez de apresentar uma série de fatos e eventos palpáveis, e esperar que a plateia enxergue sozinha a inteligência naquelas associações, e com isso ficar inspirada, Nolan apela para o irracional: confunde o espectador com tramas obscuras, impedindo que ele tenha uma medida exata daquilo que está sendo afirmado, toca em temas técnicos e confusos como viagem no tempo, física quântica, o funcionamento do cérebro, etc, deixando o espectador "desarmado", sem o poder de julgar os fatos com clareza, e em cima disso, usa sua habilidade de causar emoções pra criar a impressão de um acontecimento profundo, arrebatador, com atores fazendo expressões de espanto, uma música épica tocando, etc.

Shyamalan é outro que apenas ocasionalmente consegue provocar emoções de maneira racional. SPOILER: Em seu último filme Fragmentado (2016), há um momento no final onde aparece o personagem do Bruce Willis, que conecta o filme com o universo de Corpo Fechado (2000):

https://www.youtube.com/watch?v=T4drX5Xzo5o

A revelação só parece impactante por causa da maneira como a cena é dirigida: a música edificante, a câmera se aproximando lentamente, a aparição inesperada de Bruce Willis, etc. Mas é uma reviravolta que não tem qualquer consequência pra história que acabamos de assistir, pros destinos dos personagens que estávamos acompanhando, e a conexão com o filme Corpo Fechado não parece especialmente lógica ou engenhosa a ponto de ficarmos admirados pelo roteiro. O filme simula muito bem a emoção de uma surpresa arrebatadora, mas não consegue suportar essa emoção com fatos. Algo bem diferente do final de O Sexto Sentido (1999), onde de fato tínhamos razões para ficarmos espantados.

Ou seja, estou apenas diferenciando o método que diferentes cineastas usam pra provocar impressões na plateia, e não o conteúdo dessas impressões. Um filme pode utilizar do método certo, e ainda assim desagradar o "espectador racional", caso ele esteja projetando valores que vão contra os seus.

No filme recente Okja (2016), eu critiquei a tentativa do filme de criar empatia pelo animal mostrando que ele morreria pela garotinha (o ideal do auto-sacrifício), dando ênfase em suas fezes em tom de humor, etc. Minha crítica aqui não é em relação ao método (racional ou irracional). O método está certo: o filme tenta criar uma emoção de afeto mostrando a relação entre o animal e a garotinha, apresentando as qualidades do bicho através de ações, cenas, etc. Minha objeção aqui é em relação ao conteúdo, pois não acho que as qualidades demonstradas pela criatura sejam de fato atraentes.

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