quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Os Favoritos de 2014


Meus filmes favoritos vistos em 2014:

- Hoje Eu Quero Voltar Sozinho: Filme perfeito dentro de sua simplicidade, retratando personagens carismáticos e relacionamentos fascinantes. Roteiro impecável, elenco perfeito, ótima fotografia, final inesquecível. NOTA: 10

- Ninfomaníaca - Volume 1: Um dos filmes mais inteligentes e criativos que já vi. NOTA: 10

- Relatos Selvagens: Coleção genial de curtas sobre violência e vingança. Qualquer um dos 6 estaria entre os melhores que já vi. NOTA: 9.0

- Walt Nos Bastidores de Mary Poppins: Filme impecável, divertido, informativo, com uma profundidade emocional surpreendente, ótima produção e ótimo elenco. NOTA: 8.5

- O Abutre: Valores discutíveis, mas um suspense com um ótimo roteiro e muito bem realizado em todos os aspectos técnicos. NOTA: 8.5

- Mommy: Filme alternativo, denso, extremamente autêntico, com um show de atores, personagens e direção. Se tivesse uma narrativa igualmente inspirada seria ainda melhor. NOTA: 8.0

- Ela: Retrato brilhante e sensível de um relacionamento entre um homem e uma máquina (e um retrato de relacionamentos em geral). Só discordo um pouco do tom de crítica à tecnologia. NOTA: 8.0

OS PIORES:
Amante a Domicílio
Eu, Mamãe e os Meninos
Riocorrente
Jersey Boys: Em Busca da Música
Transformers: A Era da Extinção
Festa no Céu
Rio, Eu Te Amo

OS MAIS SUPERESTIMADOS:
O Lobo de Wall Street
12 Anos de Escravidão
Frozen: Uma Aventura Congelante
O Grande Hotel Budapeste
Interestelar
Uma Aventura Lego
Guardiões da Galáxia

O MAIS BIZARRO:
O Homem Duplicado

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Operação Big Hero


- Protagonista não é muito atraente ou admirável. Herói envergonhado

- Legal a cena na sala de invenções da universidade. Ideias divertidas.

- Por que o Baymax é inflável?? Não é uma ideia muito boa ou lógica pra um robô de alta tecnologia. Dá a impressão que ele não é muito prático e pode estourar a qualquer momento.

- 40 minutos de filme e eu ainda não sei sobre o que é a história. É sobre a amizade entre Hiro e Baymax? É sobre os microbots? É sobre o sonho do garoto de entrar na universidade? 

- Pelo pôster e pelo trailer dava a impressão que o filme era sobre o Baymax. Mas a história é muito mais sobre o vilão e o roubo dos microbots. Baymax não tem um papel fundamental nessa história. É apenas um "sidekick". O filme está indeciso entre 2 conceitos de narrativa.

- O roteiro é realmente péssimo! A parte da amizade entre Hiro e Baymax não é bem desenvolvida, daí o filme muda o foco pra trama dos microbots, que é chata, não tem um conflito interessante (parece mais um daqueles vilões do Scooby Doo que ficam sem identidade até a última cena). Depois surge do nada a história do teletransporte, da morte da filha do Callaghan, que consegue ser ainda menos interessante. O final é um verdadeiro show de más ideias!

- SPOILER: Tendência Irritante em Hollywood #5 - Auto-Sacrifício: Hiro arrisca a vida pra salvar a filha do Callaghan (que ele nem conhece). Baymax se sacrifica pra salvar Hiro. Mas no final nem Hiro nem Baymax morrem. O filme quer tudo - o crédito moral pelo auto-sacrifício, e o conforto de não ter que sacrificar nada (é que nem Jesus que pode ressuscitar depois).

CONCLUSÃO: Animação boa, roteiro e personagens fracos, valores ruins.

(Big Hero 6 / EUA / 2014 / Don Hall, Chris Williams)

FILMES PARECIDOS: Guardiões da Galáxia / Frozen / Universidade Monstros / Detona Ralph 

NOTA: 4.0

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O Abutre

- Muito boa a fotografia / a edição no começo do filme. Apesar de ter uma textura digital (que eu não sou tão fã) os enquadramentos transmitem ordem, clareza, precisão - refletem um diretor que sabe o que quer dizer e como irá dizê-lo.

- O personagem certamente não é admirável e o filme quase cai na tentação de glamourizá-lo, torná-lo "cool", mas fica no limite... Ainda ficamos a impressão de que ele é um cara sinistro, perturbado, então o resultado ainda é aceitável.

- Assunto interessante e original! Nem sabia que existia gente que ganhava a vida dessa maneira. Ótima forma de fazer uma crítica ao sensacionalismo na TV (e também ao público que dá audiência pra tais programas). O filme lembra Rede de Intrigas (1976) e a personagem da Rene Russo lembra muito a da Faye Dunaway.

- Roteiro muito bom. Apesar da ética duvidosa do protagonista, o filme não é apenas um estudo de personagem. Por trás disso existe uma boa trama.

- Jake Gyllenhaal está ótimo! Muito boa a atitude simpática, quase como se ele estivesse atuando em uma comédia romântica. Isso somado à magreza dele e ao olhar fixo dão um aspecto sinistro ao personagem.

- SPOILER: Várias cenas ótimas: ele arrastando o morto pra conseguir uma tomada melhor / o diálogo dele chantageando a Rene Russo no restaurante / a sequência em que ele entra na casa da família assassinada, etc. E tudo está integrado ao tema do filme, que é o mal da ambição (quando dissociada da ética).

- O maior problema é que o filme pode ser visto também como uma crítica à ambição em geral (não apenas quando dissociada da ética). Pois é extremamente comum a ideia de que a pessoa ambiciosa e focada na carreira irá passar por cima de todos pra conseguir o que quer. Então em vez de "o mal da ambição quando dissociada da ética", o tema do filme pode ser também "o mal da autoestima, da ambição e do capitalismo", o que é bem diferente!

- SPOILER: Roteiro continua forte até o final! Ideia dele ocultar a identidade dos assassinos pra conseguir mais uma matéria cria um ótimo gancho pro terceiro ato. Clímax muito bom (amigo sendo baleado, etc). Trama bem arquitetada pra ilustrar a desumanidade do personagem. A cena quase "romântica" entre ele e a Rene Russo quando ele entrega o vídeo final é hilária (de novo lembra muito o tom satírico do Rede de Intrigas).

CONCLUSÃO: Valores discutíveis, mas um suspense com um ótimo roteiro e muito bem realizado em todos os sentidos.

FILMES PARECIDOS: Garota Exemplar / O Conselheiro do Crime / Drive / O Lobo de Wall Street / Rede de Intrigas

NOTA: 8.5

sábado, 20 de dezembro de 2014

Êxodo: Deuses e Reis


- Elenco de primeira e produção grandiosa dão um tom respeitável pro filme. Embora essa "grandiosidade" com cara de computação gráfica não chegue aos pés dos épicos de antigamente como Ben-Hur, etc. 

- Christian Bale transmite força mas não está muito gostável. Esses épicos de hoje exageram muito na testosterona: os protagonistas estão sempre fazendo cara de "macho", preocupados em parecerem durões, e esquecem de criar um vínculo emocional com a plateia.

- Começo do romance muito sem graça. Odeio essas "étnicas" belas e sem personalidade que aparecem e conquistam o herói pela aparência.

- Produção tem mais nível que a média, mas ainda assim Ridley Scott parece estar no "piloto automático". Nada no filme soa surpreendente, inovador, autêntico. Há um pouco da Mentalidade Clichê.

- Roteiro fraco, pouco estimulante intelectualmente, e sem força dramática. A rivalidade entre Moisés e Ramsés não funciona: inclusive o Ramsés às vezes me parece mais carismático do que Moisés, a ponto de eu ficar com pena dele e achar a atitude de Moisés agressiva e detestável. Talvez esse seja o problema mais grave do filme. Nem as pragas são empolgantes de ver... Estou mais com pena da população do que curtindo o espetáculo. E é horrível que essa violência toda esteja sendo causada pelo "time" de Moisés e Deus - os supostos mocinhos.

- Filme não consegue criar muita admiração por Moisés. Não é preciso muita inteligência pra ganhar essa guerra quando Deus está do seu lado usando poderes mágicos.

- SPOILER: Sequência mais interessante do filme é a ação final no Mar Vermelho. Embora algumas coisas sejam muito excessivas (Moisés e Ramsés serem pegos pela onda e não morrerem é absurdo). E os múltiplos tornados também são um exagero. Filme catástrofe é legal quando se passa no nosso mundo (no presente, em grandes cidades como Nova York, etc). Mas não há tanta graça em ver tornados e tsunamis num universo que já é fantástico.

CONCLUSÃO: Produção acima da média mas não funciona dramaticamente (conflito entre Moisés e Ramsés é mal desenvolvido e não faz a gente se interessar pelos personagens e pela história).

FILMES PARECIDOS: Noé / Pompéia / 10.000 A.C. / Cruzada

NOTA: 6.0

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

The Babadook

- Direção muito diferente e interessante! O filme consegue dar medo não só através da história, mas através do estilo - da direção de atores, do uso de som, da fotografia, etc. Lembra um pouco o terror italiano dos anos 70 (Suspiria, etc). Cenas bizarras (como a da mãe se masturbando) só contribuem pra estranheza do filme.

- Medo desse livro do Babadook e das ilustrações!

- O garoto é muito irritante! Nenhum dos personagens é totalmente gostável. A gente simpatiza pela mãe (pelo drama que ela vive) mas de vez em quando ela tem atitudes agressivas com outros personagens que mancham um pouco sua simpatia.

- Sequência em que Sam tem a convulsão: Essie Davis está excelente como a mãe! Uma das performances mais surpreendentes do ano.

- SPOILER: Voz do Babadook no telefone é arrepiante...!

- Um problema frequente em filmes desse gênero é que os personagens não têm muito o que fazer - ficam aguardando passivamente o próximo ataque do monstro, o que dá um tom um monótono pra história. Mas pelo menos o Babadook é um conceito de monstro diferente (não é um filme de espírito como esses que saem toda semana).

- SPOILER: Sinistra a mãe "possuída"!! A atriz realmente está dando um show. É interessante essa inversão de papeis: a mãe se tornando o "problema" e o filho se tornando a figura sensata e responsável com a qual a gente se identifica.

- Filme "empresta" algumas ideias de filmes clássicos de terror como O Iluminado, Poltergeist, O Exorcista.

- No final o filme passa tempo demais tentando apenas provocar emoções de medo através de imagens, sons, sem voltar pra um clima normal, de realidade, o que eventualmente se torna cansativo. Falta variedade de emoção, e falta também alimento pro cérebro do espectador... Algo que o deixe curioso pela história, que vá além de ter sensações de medo.

- SPOILER: Desfecho da história muito bom!! Fica claro agora o que representa o Babadook - e é legal a ideia de que ela não pode se livrar totalmente do seu trauma, mas que pode administrá-lo de forma que isso não a impeça de viver sua vida e ser feliz.

CONCLUSÃO: Um dos filmes de terror mais interessantes e sinistros dos últimos tempos, com uma performance surpreendente de Essie Davis.

(The Babadook / Austrália / 2014 / Jennifer Kent)

FILMES PARECIDOS: A Entidade, Alucinações do Passado, O Iluminado.

NOTA: 7.5

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Mommy

- Mãe completamente doida! Existe gente assim? A relação dela com o filho é totalmente surreal, mas ao mesmo tempo divertida de assistir. Eles se gostam e se divertem juntos, e não têm nenhum tipo de filtro - falam o que pensam, fazem o que têm vontade, são livres de qualquer repressão (com consequências destrutivas, mas não deixa de ser fascinante de ver). Os atores são carismáticos e totalmente convincentes.

- Estilo de direção muito excêntrico e interessante! Incrível a autenticidade e liberdade artística do diretor. Até o formato 1:1 da tela é fora dos padrões. Mas não parece exibicionismo gratuito pois os personagens e o conteúdo das cenas são ricos. E além disso, faz sentido um filme sobre pessoas excêntricas ser contado de uma maneira excêntrica. A gente se sente no mundo deles.

- A loucura deles se torna tangível pois o filme está sempre colocando os dois em ambientes convencionais, interagindo com pessoas convencionais, o que cria o contraste certo.

- Chocante a briga do Steve com a mãe! O filme tem uma cara realista, mas ao mesmo tempo é escapismo, pois raramente vemos pessoas assim no dia a dia ou vivemos emoções tão extremas.

- Briga de Steve com a vizinha igualmente forte! Psicologicamente, é interessante uma mulher mais recatada (que tem dificuldade até de falar) se sentir atraída por uma família tão sem limites. A ligação emocional dela com Steve acontece depois que ela "explode" na briga e começa a falar a língua dele.

- Não há uma trama estruturada (o filme está mais pro Naturalismo), mas ele não se torna entediante pois, além do magnetismo dos personagens, há sempre coisas dramáticas e imprevisíveis acontecendo.

- Bonita a amizade que vai se formando entre Kyla e os dois (a cena da "selfie" que eles tiram, etc). Apesar dos temas pesados, o filme foca em relações positivas.

- Curioso ver várias referências "pop" num filme naturalista (Celine Dion, Esqueceram de Mim, etc). Pode ser sinal de "Romantismo Reprimido" no diretor. Ele está sempre flertando com o universo do entretenimento, mas resistindo à tentação de se tornar positivo.

- SPOILER: Várias cenas boas: a que Steve é humilhado no karaokê, a tentativa de suicídio no mercado, sequência em que a mãe sonha com o futuro do Steve. A entrega dele no hospital é fortíssima.

- SPOILER: Ambíguo o fim. Será que o menino vai se jogar pela janela? O que significa?

CONCLUSÃO: Filme denso, extremamente autêntico, com um show de atores, personagens e direção. Se tivesse uma narrativa igualmente inspirada seria ainda melhor.

(Mommy / Canadá / 2014 / Xavier Dolan)

FILMES PARECIDOS: ?

NOTA: 8.0

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos

- Produção grandiosa e atores famosos dão um senso de "importância" pro filme que prende a atenção até certo ponto.

- História muito pouco envolvente / empolgante. O filme tem vários protagonistas, mas nenhum muito carismático, e nenhum com um desejo ou um objetivo muito forte... Como espectador eu não quero aguardar 2 horas só pra ver uma batalha no final (e o fato de serem 5 exércitos não torna a coisa 5 vezes mais interessante).

- Não entendo muito bem de quem é o ouro, o que pertence a quem, quem está certo e quem está errado... Isso prejudica o envolvimento.

- Cenas de ação parecem completamente irreais e por isso não têm efeito. Fica tudo com cara de video game - um mundo onde as leis da física não existem.

- Detesto quando o dinheiro (nesse caso, o ouro) é o grande vilão do filme. Os personagens negativos todos desejam o ouro... E os bons só querem saber do lar, dos amigos, de cumprir seus deveres, etc.

- SPOILER: Falta um vilão forte! O rei já era um vilão fraco (pois estava "possuído" pela ganância - não havia um conflito moral sério). Agora que ele passou pro lado do bem, os vilões são apenas esses Orcs que não têm personalidade.

- A trilha sonora tem alguns bons momentos... Gosto quando surgem sutilmente os temas do anel, do Hobbit, etc...

- Clichês: muitas cenas onde o personagem está prestes a ser morto por um vilão, e daí um amigo aparece no último segundo e golpeia o vilão pelas costas! Alguém preocupado em entreter não repete a mesma cena diversas vezes no filme e espera que ela tenha algum impacto.

- O filme todo parece um exemplo de "classicismo": o cineasta segue todas as regras da "Jornada do Herói" (como George Lucas fez em Star Wars), e acha que isso irá automaticamente produzir um filme excitante e dramático, "livrando" ele de ter que entender o que faz uma boa narrativa.

- SPOILER: Nada muito surpreendente, mas legal a conexão com O Senhor dos Anéis na última cena.

CONCLUSÃO: Parte técnica impressiona, mas não há uma história envolvente, personagens fascinantes - falta entretenimento e emoção.

(The Hobbit: The Battle of the Five Armies / Nova Zelândia, EUA / 2014 / Peter Jackson)

FILMES PARECIDOS: Malévola / As Crônicas de Nárnia (série) / Transformers (série) / Piratas do Caribe (série)

NOTA: 4.0

sábado, 6 de dezembro de 2014

Quero Matar Meu Chefe 2

- O trio principal é carismático e os diversos coadjuvantes famosos (Jennifer Aniston, Kevin Spacey, Jamie Foxx, Chris Pine, etc) tornam o filme interessante de assistir.

- A história é mais convincente que a do primeiro filme, onde eles queriam assassinar os chefes. A ideia do sequestro (nesse contexto de recuperar o dinheiro perdido no golpe) é mais divertida e parece menos forçada.

- Legal eles mencionarem Dolly Parton e Como Eliminar Seu Chefe (1980) - que provavelmente foi uma inspiração. 

- Jennifer Aniston está ótima (de novo) como a viciada em sexo.

- A trama é um pouco confusa pra uma comédia. É o tipo de filme que quer estar vários passos à frente do espectador pra se mostrar mais esperto que ele. Não gosto dessa mistura - do filme querer ter uma história cômica e ao mesmo tempo uma trama sofisticada digna de um policial.

- Outra mistura que não gosto: do humor ingênuo e inocente com o humor grosseiro, cheio de palavrões, etc. Cansa ficar saltando entre estados de espírito.

CONCLUSÃO: Comédia despretensiosa, no mesmo nível da primeira parte, que diverte por causa do elenco e das participações especiais.

(Horrible Bosses 2 / EUA / 2014 / Sean Anders)

FILMES PARECIDOS: Anjos da Lei 2 / Vizinhos / Se Beber, Não Case

NOTA: 5.5

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

De Volta ao Jogo


- Um pouco clichê a apresentação do herói, mas não é mal feito (ele perder a esposa, ele sendo bonzinho com um cão - parece um manual básico de como criar empatia pelo personagem).

- Outros clichês: o homem misterioso assistindo o enterro de longe (com um guarda-chuva!) / os vilões com sotaque estrangeiro...

- Locações elegantes e a presença de Keanu Reeves dão certo nível pra produção. 

- SPOILER: A motivação do personagem é muito banal! Keanu vai perseguir os bandidos só pra vingar a morte do cachorro??? Se os bandidos tivessem matado a mulher dele, daí sim seria mais compreensível. Ou se houvesse uma motivação espiritual / psicológica por trás disso tudo, que fosse além da morte do cachorro e do roubo do carro.

- A história é uma desculpa esfarrapada pra mostrar pancadaria e violência. O filme tem "agressividade" como um valor em si (cenas de morte, ferimentos, armas, os personagens são criminosos, os ambientes são underground, a trilha é de rock, etc).

- Ridícula a cena do Keanu atirando em todo mundo na casa noturna!! Esse massacre todo por causa de um cachorro? O que é isso, video game? GTA? É violência pela violência - o filme não se preocupa nem em ter uma justificativa plausível para o que está acontecendo. E também não se preocupa em criar vilões detestáveis, pra que pelo menos a plateia tenha alguma satisfação emocional ao ver a matança. 

- O filme é superficial e materialista, no sentido de que o Keanu só é "heroico" em termos puramente físicos - no fato dele conseguir matar vários homens sozinho. Fora essa habilidade, não há nada de admirável no personagem. Ele é o típico herói do filisteu, do homem superficial e sem imaginação.

CONCLUSÃO: Keanu Reeves e direção competente dão uma aparência respeitável pro filme, que no fundo é uma grande desculpa pra mostrar violência.

(John Wick / EUA, Canadá, China / 2014 / Chad Stahelski)

FILMES PARECIDOS: O Protetor, Busca Implacável, Carga Explosiva, etc. 

NOTA: 4.5

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Saint Laurent

- Bom o começo mostrando os detalhes da confecção das roupas, o perfeccionismo de Yves. Ao mesmo tempo, ele é apresentado como como uma pessoa ligeiramente antipática.

- Produção decente (boa fotografia, figurinos, elenco, etc).

- O que tem a ver a montagem mostrando os acontecimentos políticos da época? Ficou algo solto, sem relação com o resto do filme.

- Caracterização de Yves é superficial. O que o motiva? O que ele quer expressar com suas roupas? O filme não nos faz conhecê-lo. É um retrato externo de um estilo de vida superficial, vazio, de pessoas cínicas e entediadas.

- Quase todos os personagens coadjuvantes são anônimos, distantes, mal apresentados. O filme dá a sensação de entrar numa festa errada onde você não foi convidado e não conhece ninguém.

- Embora não seja americano, o filme segue a tendência das biografias ofensivas. O desejo do cineasta parece ser o de mostrar a podridão por trás do sucesso, do talento... de igualar genialidade a perturbação mental, de mostrar pra plateia que talento é algo aleatório que não está ligado a virtudes, a esforço, etc.

- Não há história. Por que retratar esse período específico da vida de Yves e não qualquer outro? O que de importante está acontecendo com ele? O filme é cheio de cenas chatas, desnecessárias, que não levam a lugar nenhum e nem revelam algo de interessante a respeito do personagem. O filme é uma celebração do mundo das aparências, das drogas, do sexo casual (e não é uma condenação desse estilo de vida - os personagens são glamourosos).

- Final é interminável e vai ficando cada vez mais monótono, sem ritmo, fragmentado, tedioso.

- Roupas do desfile final são muito bonitas. A melhor coisa do filme é o figurino, sem dúvida.

CONCLUSÃO: Biografia longa e fútil de Saint Laurent que foca no lado decadente do personagem e carece de história.

(Saint Laurent / França, Bélgica / 2014 / Bertrand Bonello)

FILMES PARECIDOS: Coco Antes de Chanel / Os Sonhadores

NOTA: 3.5

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Boa Sorte

- Direção de atores não é muito boa. Deborah Secco e Fernanda Montenegro seguram, mas o garoto principal e o resto do elenco não convencem muito bem.

- Nível geral do filme é baixo - tecnicamente não há nada de especial, os diálogos são ruins, os personagens são fracos, a psicologia é superficial, não há um drama envolvente, cenas memoráveis, etc.

- Retrato naturalista de pessoas decadentes, vivendo num lugar horrível e sem objetivos interessantes. E pra piorar o filme mostra os personagens com simpatia, como se eles fossem pessoas interessantes ou "descoladas" no mínimo.

- A conexão entre os dois não é muito profunda ou fascinante, a impressão que dá é que eles se uniram pela solidão mesmo, não por reais afinidades.

- Nojento mostrar os dois se beijando na boca logo depois da cena em que a personagem aidética é vista tossindo sangue.

CONCLUSÃO: Filme pobre tanto em técnica quanto em conteúdo que tenta ganhar alguma relevância apelando para o negativo e deprimente.

(Boa Sorte / Brasil / 2014 / Carolina Jabor)

FILMES PARECIDOS: O Azul É a Cor Mais Quente, Paraísos Artificiais.

NOTA: 2.0

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1

- Um pouco confuso o começo pra quem não lembra bem da última parte.

- 40 minutos de filme e ainda não há um gancho dramático. A trama é burocrática, chata, não há uma meta interessante, suspense, ação, romance. O que prende a atenção é mais o fato do filme ser uma produção cara, ter uma atriz forte no papel principal, um tom sério, mas não há um bom roteiro de fato sustentando isso tudo.

- O filme parece focar numa discussão política, mas na realidade não diz nada de concreto a respeito de política (exceto que uma ditadura é ruim, o que é meio óbvio). Tanto a direita quanto a esquerda poderão aproveitar o filme e achar que no fundo ele defende os seus ideais (na minha visão, ele está sutilmente mais em sintonia com a esquerda).

- Não foi a Katniss que derrubou a aeronave em cima do hospital?? Ficou confusa essa parte.

- Outra parte confusa: os rebeldes cometem suicídio em massa só pra explodir a hidrelétrica???

- O filme foca muito no negativo - no sofrimento, na dor, no dever. Das "10 tendências irritantes em Hollywood", o filme segue pelo menos umas 5. Pra um dos filmes mais comerciais e "pop" do ano, ele é incrivelmente anti-entretenimento, anti-prazer. A preocupação parece ser mais a de soar "sério" e "respeitável".

- A heroína não tem 1 desejo próprio, o que a torna pouco interessante. Ela parece estar apenas a serviço dos outros, sem nenhum interesse pessoal (tudo o que ela faz é pelo povo, pela irmã, nem mesmo o romance com Peeta parece ser algo que ela deseja com intensidade).

- SPOILER: Surpreendente o ataque do Peeta, embora seja um susto meio barato (ele simplesmente estava drogado - jamais teria feito aquilo em sã consciência).

CONCLUSÃO: Produção respeitável porém pouco divertida, pouco surpreendente, sem muita originalidade, que foca mais no aspecto político da história, mas não diz nada de interessante a respeito disso.

(The Hunger Games: Mockingjay - Part 1 / EUA / 2014 / Francis Lawrence)

FILMES PARECIDOS: Maze Runner, O Doador de Memórias, Divergente, Harry Potter, etc.

NOTA: 6.0

sábado, 15 de novembro de 2014

Debi & Lóide 2

- Ótima a ideia da "pegadinha" que o Lóide faz com o Debi. É como se eles tivessem sido congelados por 20 anos e a história continuasse agora como se nada tivesse mudado. 

- Gosto do estilo caricato e exagerado do filme, que torna inconfundível o fato do filme ser uma comédia. Tem muita comédia hoje em dia que borra a linha divisória entre comédia e drama e às vezes pede pra gente se importar seriamente pelos personagens (ou pela história).

- A trama de ir atrás de um rim não é das mais interessantes... A história poderia ser um pouco mais divertida.

- As piadas nem sempre são boas, mas gosto do fato de ser uma comédia criativa, baseada em ideias (muitas piadas visuais) e em performance, não apenas em escatologia, cenas constrangedoras (embora o filme não esteja livre disso).

- Clímax na conferência menos divertido do que o resto do filme (não tem tanto a ver esse clima "policial" que o filme adquire no fim).

- SPOILER: Brilhante a história do rim ter sido uma pegadinha também. Nada mais apropriado do que o filme inteiro ter sido uma besteira completamente desnecessária!!!

CONCLUSÃO: Irregular, mas ainda assim é uma comédia cheia de boas piadas e com performances divertidas de Jim Carrey e Jeff Daniels.

(Dumb and Dumber To / EUA / 2014 / Bobby Farrelly, Peter Farrelly)

FILMES PARECIDOS: Família do Bagulho, Anjos da Lei, Professora Sem Classe, O Âncora, Jackass: Cara-de-Pau - O Filme.

NOTA: 6.5

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Uma Viagem Extraordinária

- Visual realmente impressionante! Que locações são essas na fazenda???? Lindíssimo.

- Filme cheio de ideias criativas, divertidas e excêntricas (tanto no visual, quanto nos diálogos, nas ações, etc). Lembra um pouco o estilo do Wes Anderson, mas melhorado, pois há inteligência nos diálogos, profundidade psicológica, e além disso os personagens e os relacionamentos são gostáveis (o garotinho é inteligente, independente, fofo, etc).

- Detalhe técnico: a legenda em português é muito mal feita e entra em conflito com o 3D do filme.

- Filme sofre do que chamo de Romantismo Reprimido. Basicamente é a história de um menino especial, gênio, que vive uma grande aventura e ganha um prêmio no fim. Virtudes, aventura, triunfo: tudo isso parece ser romântico, no entanto o filme não soa romântico, pois tudo isso é bastante atenuado através da direção, de forma que o filme fica parecendo uma fábula, algo que não existe e não está acontecendo de fato - uma história inspiradora mas que é só de "brincadeirinha". Não é realista e nem tenta parecer.

- Viagem de trem linda! O grande mérito do filme é a fotografia em 3D, sem dúvida. Até os vermes na laranja parecem lindos.

- Elenco do filme é bom: Judy Davis, Helena Bonham-Carter. Divertida a relação da Judy Davis com o garoto e a forma como ela o acolhe.

- SPOILER: A história da morte do irmão parece algo desencaixado do filme, que não tem a ver com o tema e a história - apenas algo acrescentado pra tentar dar mais carga dramática ao filme.

- SPOILER: O final é um pouco estranho e anticlimático: a entrevista dele pra TV quase vira um fiasco, depois a Judy Davis, que era adorável, xinga o menino de "motherf..." (isso combina com o Romantismo Reprimido do filme: "sujar" o final um pouco pra ele não se tornar tão satisfatório).

CONCLUSÃO: Filme simpático, com personagens gostáveis, ideias criativas, mas que se destaca principalmente pelo visual.

(L'Extravagant voyage du jeune et prodigieux T.S. Spivet / França, Austrália, Canadá / 2013 / Jean-Pierre Jeunet)

FILMES PARECIDOS: Moonrise Kingdom, Tão Forte e Tão Perto, Viagem a Darjeeling, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

NOTA: 7.5

Romantismo Reprimido

Vou chamar de Romantismo Reprimido um fenômeno que é da família do do Herói Envergonhado, mas que é algo mais abrangente, que está num estágio anterior - é uma característica psicológica que interfere no filme (ou na obra) como um todo, não apenas na figura do personagem central. Podemos dizer que o Herói Envergonhado pode ser resultado do Romantismo Reprimido, mas este pode se manifestar de outras formas também (e não só em filmes!).

Romantismo é a visão de que a arte deve projetar as coisas como elas deveriam ser - uma visão exaltada da existência (e do homem) que inspira o espectador e transmite valores positivos. É algo que apela para nossa natureza idealista, que busca a perfeição e deseja vivenciar sem restrições o melhor que o mundo tem a oferecer.

Quando somos criança, todos gostamos do Romantismo e o aceitamos sem questionamento (geralmente nem temos consciência de que há uma "polêmica" a respeito disso, e não entendemos por que alguém iria querer consumir arte que não fosse romântica). Na medida em que crescemos, alguns de nós preservam esse gosto pelo Romantismo, mas alguns o abandonam, passando a ter uma visão cínica e pessimista da vida (e querendo ver essa visão refletida na arte, muitas vezes como um ato de rebeldia contra o idealismo da juventude, ou como uma consolo pras próprias frustrações). Mas em muitos casos, as pessoas ficam no meio do caminho - nem cedendo totalmente ao cinismo, e nem aceitando a visão romântica por completo. É aí que pode ocorrer o que chamo de Romantismo Reprimido.

Ele acontece quando o artista, num nível emocional, deseja criar algo idealizado, positivo, mas isso entra em conflito com o seu lado cínico (que não acredita totalmente na mensagem que quer passar). Então ele tenta "disfarçar" seu romantismo de alguma forma - amenizando esse aspecto de seu trabalho (normalmente por medo de ser acusado de ser ingênuo, imaturo, ou uma farsa). O resultado é um trabalho contraditório, que cria e destrói as próprias intenções, fica no meio do caminho, nem inspira e nem deprime.

É importante notar a essência do equívoco: muitas pessoas acreditam subconscientemente que o romantismo é algo que reflete imaturidade, ingenuidade, fraqueza, falta de realismo - e que cinismo, pessimismo e moderação refletem força, maturidade, realismo (talvez por ser algo exclusivo da vida adulta, o que não torna isso necessariamente desejável; artrose também é algo exclusivo da vida adulta e nem por isso é algo bom). Como os adultos (mesmo os românticos) querem ser vistos como maduros e inteligentes, eles podem cair na armadilha de adotar uma atitude cínica achando que isso comprovará inteligência e maturidade, quando na verdade essas são características independentes. Uma pessoa pode ser 1) idealista e madura, 2) idealista e imatura, 3) cínica e madura, 4) cínica e imatura. A postura que a pessoa toma diante da vida e do homem é uma coisa - depende de seu temperamento, de sua filosofia, de seu Senso de Vida, etc. A qualidade e a profundidade de seu pensamento é outra. O que quero dizer é: mesmo sendo realista e aceitando que a vida raramente é tão perfeita quanto a imaginação pode conceber, ainda é possível manter um respeito pela função da arte romântica de projetar esses ideais que nos inspiram e nos fazem buscar o melhor, sem se rebelar imaturamente contra o fato de que a vida não é perfeita na maior parte do tempo.

Vou listar abaixo algumas das estratégias que esses artistas divididos costumam usar pra "disfarçar" o aspecto idealista / romântico neles:

1. Expressando algo romântico mas de maneira caricata, exagerada, dando um tom cômico, fútil ou não realista para aquilo.
2. Expressando algo romântico mas logo em seguida fazendo algo anti-romântico pra quebrar o clima.
3. Expressando algo romântico mas simultaneamente fazendo apelo ao violento, ao vulgar, ao imoral, ao trágico, ao melancólico, ao feio e ao negativo pra "equilibrar" o resultado.
4. Expressando algo romântico mas de maneira discreta, casual, despretensiosa, sem emoção, vigor ou intensidade, como se não fosse algo importante (misturando romantismo com naturalismo, minimalismo).
5. Expressando algo admirável apenas num nível técnico / visual, mas não em aspectos mais relevantes da obra.
6. Não sendo romântico, mas constantemente fazendo referências e flertando com o universo do romantismo, geralmente em tom cínico.
7. Debochando do romantismo de outras pessoas, lugares ou épocas, invalidando aquilo como algo superficial, ridículo ou ultrapassado.

Esses últimos na verdade não são românticos reprimidos, e sim cínicos convictos que desejam apenas desencorajar o que há de romântico nas outras pessoas. No que chamo de Romantismo Reprimido, o artista simpatiza pelo Romantismo em algum nível, mas ele tenta disfarçar ou amenizar isso através das técnicas acima (entre outras). O receio é sempre o de revelar seu lado idealista - o que há de mais puro em sua essência: felicidade, ambição, autoestima, uma visão não-cínica da existência e do homem.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

10 Tendências Irritantes em Hollywood

1. Anti-Heróis


Antigamente o normal em Hollywood era você ver protagonistas admiráveis, figuras exemplares, inspiradoras, que o público saía da sala querendo imitar. Agora os heróis passaram a demonstrar todo tipo de problema, de questões psicológicas, fisicamente se tornaram mais limitados, moralmente ambíguos e questionáveis - isso quando o filme não abandona totalmente o conceito de herói e passa a retratar figuras assumidamente más. Isso tudo faz parte de uma tendência anti-romântica que ganhou força nos EUA nesse começo de século. Leiam a postagem "herói envergonhado" pra uma discussão detalhada (embora aqui eu esteja me referindo a anti-heróis em geral, e não apenas ao que chamo de herói envergonhado, que é um fenômeno mais específico).



2. Câmera na Mão


Antigamente a câmera na mão costumava ser usada em certos contextos: quando se queria criar um clima de documentário, ou em cenas de ação / suspense (Kubrick com frequência usava câmera na mão em cenas de briga ou de tensão pra criar um clima de instabilidade). Mas é isso que a câmera na mão produz: um clima de instabilidade, improviso, agitação. É um efeito perfeitamente útil em certos momentos, mas quando isso passa a ser a maneira normal de se gravar filmes e séries, a técnica acaba perdendo o sentido e dando um tom de improviso pro filme como um todo: como se o diretor quisesse dizer que ele é despretensioso e não liga muito pra precisão técnica.


3. Culto à Dor


É quando o cineasta acredita que sofrimento/dor/violência são coisas dignas de contemplação e usa isso como se fosse um substituto para conteúdo e méritos cinematográficos reais - não como uma técnica pra criar tensão, um contraste pra cenas positivas que virão depois na história e trarão alívio, mas como um fim em si mesmo. Sempre houve filmes agressivos e violentos em todas as épocas, mas o que chama atenção agora é essa atitude estar invadindo o cinema de entretenimento: filmes de grande bilheteria como Batman, Harry Potter, desenhos como Toy Story 3, inúmeras versões "dark" de filmes infantis e contos de fadas (Branca de Neve e o Caçador, etc) - ser sombrio ou pesar a mão na violência e no sofrimento de repente se tornou a forma mais garantida de ser "cool" e respeitável, indicando orgulhosamente pra plateia que o filme não é agradável demais e, portanto, "superficial" e "hollywoodiano".



4. Fotografia Dessaturada

Cor é sinônimo de vitalidade, saúde, alegria. Deixar uma imagem com menos cor do que o natural pode ser perfeitamente útil pra criar um clima de melancolia, tristeza, mas muitos filmes hoje em dia que supostamente querem divertir adotam como padrão essa aparência dessaturada (ou azulada, dando um ar de frieza), que pode parecer um detalhe, mas é também reflexo do item anterior: o culto ao sombrio, ao melancólico, ao triste.






5. Auto-Sacrifício

Fico sempre atento a filmes quando eles tentam tornar sacrifício sinônimo de heroísmo. Não vejo problemas em um herói abrir mão de algo importante em sua vida por algum motivo racional (como em Casablanca), ou até em se suicidar quando não se vê mais chances de ser feliz na Terra (como em Thelma & Louise). Mas não admiro sacrifício em nome de um dever, de um senso de responsabilidade por algo externo, que coloca uma obrigação social acima do valor da própria vida. É comum cenas de sacrifício acontecerem nos finais dos filmes, onde no lugar deveriam estar os momentos de maior satisfação da história. Observe Guardiões da Galáxia, Frozen, Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Detona Ralph, etc.


6. Sequências / Versões / Reboots / Prequels / Adaptações

Na década de 90 nos EUA, os filmes de maior bilheteria do ano foram em sua maior parte histórias originais: Esqueceram de Mim, Aladdin, Forrest Gump, Toy Story, Independence Day, Titanic, O Resgate do Soldado Ryan - e isso também foi verdade nas décadas anteriores. Mas de 2000 pra cá, apenas em 2009 o filme de maior bilheteria foi uma história original (Avatar). Em todos os outros anos, o campeão foi ou uma sequência, ou uma adaptação de um livro ou quadrinho já de muito sucesso: Harry Potter, Homem-Aranha, O Senhor dos Anéis 3, Shrek 2, Star Wars Ep. 3, Piratas do Caribe 2, Homem-Aranha 3, Batman - O Cavaleiro das Trevas, Toy Story 3, Harry Potter 7 - parte 2, Jogos Vorazes - Em Chamas, etc, etc. Uma verdadeira crise de originalidade parece ter tomado conta de Hollywood (ou um verdadeiro medo de investir no novo).

7. Relacionamentos Conflituosos

Quando vejo filmes eu não busco ver apenas personagens admiráveis, mas também relacionamentos admiráveis. Me chama a atenção não só no cinema, mas principalmente na TV, que a maior parte do tempo nós passamos observando relações negativas entre as pessoas: relações de rivalidade, desconfiança, cinismo, desentendimento, atrito, inimizade. Quando estiver vendo um filme, série ou mesmo uma novela, calcule quanto tempo você passa olhando para situações de desentendimento e desarmonia, pessoas discutindo na tela e sendo agressivas umas com as outras, e compare com o tempo que você passa olhando pra algo positivo e desejável. Não vejo problema em conflitos entre heróis e vilões, pois nesse caso há o prazer de observar o herói sendo íntegro e defendendo a coisa certa. O problema é que muitos filmes focam em conflitos entre personagens que devemos gostar, ou que não são nem heróis nem vilões. Não há um conflito claro entre bem e mal - as relações simplesmente são complicadas, ambos os lados têm certas virtudes e certos defeitos, interesses incompatíveis, o que vira uma contemplação do conflito pelo conflito em si.

8. Comédias Vulgares

As comédias parecem ter se tornado impróprias para menores, e cada vez mais apelam pra escatologia e piadas explícitas envolvendo sexo. Ir ao cinema ver uma comédia com a família está cada vez mais difícil. Isso em parte reflete a diminuição da criatividade em Hollywood, pois é muito mais fácil arrancar uma risada com baixaria do que ter que criar uma frase ou piada engraçada, mas também indica uma perda de inocência na cultura em geral. Do fim dos anos 90 pra cá, as comédias de maior sucesso foram filmes como: Ted, Se Beber, Não Case, Missão Madrinha de Casamento, filmes do Adam Sandler e da turma do Judd Apatow - todos bastante grosseiros (o que às vezes eu gosto, não estou rejeitando totalmente esse tipo de humor, apenas notando o sumiço do outro tipo). Dos anos 90 pra trás, as comédias que dominavam as bilheterias eram visivelmente mais leves: Austin Powers, O Mentiroso, Melhor É Impossível, Clube das Desquitadas, True Lies, Esqueceram de Mim, Mudança de Hábito, Os Caça-Fantasmas, Férias Frustradas, Corra que a Polícia Vem Aí, Os Fantasmas Se Divertem, etc.

9. Realities Mentirosos

Reality shows dominaram a televisão nas últimas décadas, e a influência chegou também ao cinema. Muitos filmes adotaram essa linguagem de documentário - não só filmes do estilo found-footage (Atividade Paranormal, etc), como filmes como Borat ou Vovô Sem Vergonha, que dizem mostrar situações reais. No caso dos found-footage, já está subentendido que é tudo mentira. Mas em filmes como Vovô Sem Vergonha, eles realmente fingem ser situações reais, quando na verdade tudo é combinado. Séries de TV (como as de competição de canto, de chefs de cozinha, modelos, também são quase todas roteirizadas e combinadas, mas se passam por espontâneas). Me pergunto se, além de ser algo revoltante, desonesto e um insulto à inteligência da plateia, se isso não seria inclusive ilegal.

10. Biografias Ofensivas

Em vez de inspirar, biografias têm servido mais pra revelar os podres e o lado negro das celebridades. Sempre que surge algum filme biográfico, sei que é hora de aprender que aquele ídolo que eu tinha em mente na verdade era uma pessoa de caráter duvidoso. O tom dos filmes biográficos é quase sempre de ambiguidade (veja Jersey Boys, Hitchcock, A Dama de Ferro, J. Edgar - e agora no Brasil em Tim Maia, etc). Esses filmes raramente são uma celebração da vida de alguém, mas uma análise cínica, que quer te fazer concluir que sucesso não leva à felicidade, e que ninguém é admirável de fato quando visto de perto.